Habitação
Trabalhar já não chega para pagar casa: onde há mais desequilíbrio na Europa?
Maio 6, 2026 · 11:31 am
Imagem de freepik
Há uma conta simples que está a deixar de bater certo nas grandes cidades europeias: trabalhar já não chega para pagar uma casa. Em muitos casos, nem sequer perto disso. E Lisboa surge entre os exemplos mais extremos deste desequilíbrio.
Segundo uma análise recente da Confederação Europeia de Sindicatos (ETUC), baseada em dados do Eurostat para 2026 e divulgada pelo Público, a renda média de um apartamento com até dois quartos ultrapassa o salário mínimo mensal em quase todas as capitais da União Europeia. Mais do que uma tendência, trata-se de um padrão.
O estudo centra-se em 21 capitais de Estados-membros da UE e deixa de fora Áustria, Itália, Dinamarca, Finlândia, Suécia e Croácia, uma vez que não havia dados disponíveis para estes países.
Em média, nas cidades analisadas, arrendar casa custa mais 218 euros do que o salário mínimo. Mas a estatística esconde a evidência: em várias capitais, o desfasamento é muito mais profundo.
Lisboa entre as capitais onde o esforço é maior
Lisboa destaca-se nesta análise e não pelas melhores razões. A capital portuguesa apresenta o segundo rácio mais elevado entre renda média e salário mínimo de toda a União Europeia.
Com um salário mínimo considerado de 1073 euros mensais e uma renda média a rondar os 1798 euros, o esforço atinge cerca de 167,5% do rendimento. Ou seja, mesmo canalizando a totalidade do salário, um trabalhador não conseguiria pagar a renda.
Apenas Praga apresenta um cenário mais pressionado, com um rácio de 185,1%. Logo atrás surgem cidades como Dublin, onde a diferença entre rendas e salários mínimos também ultrapassa largamente os 700 euros.
Este dado torna-se ainda mais expressivo quando comparado com outras capitais europeias onde as rendas são, em termos absolutos, mais elevadas, como Paris ou Amesterdão, mas onde salários mínimos mais altos ajudam a amortecer o impacto.
Custo da renda média nas capitais dos Estados-Membros da UE
Fonte: ETUC com base nos dados da Eurostat
Uma exceção cada vez mais rara
O estudo identifica apenas cinco capitais onde o salário mínimo ainda consegue cobrir uma renda média: Bruxelas, Berlim, Nicósia, Luxemburgo e Amesterdão.
Num mapa europeu cada vez mais homogéneo na pressão sobre a habitação, estas cidades são já a exceção, não a regra.
Embora o foco recaia sobre os grandes centros urbanos, a pressão da habitação não se limita a eles. Em média, na União Europeia, o custo de arrendar casa representa 42% do salário mínimo. Em Portugal, esse valor sobe para cerca de 45,2%.
É um indicador que ajuda a perceber que o problema não está apenas na geografia, mas na relação cada vez mais frágil entre rendimentos e custo da habitação.
Uma década de escalada sem travão
O histórico recente ajuda a explicar o caminho até aqui. Em Lisboa, as rendas mais do que duplicaram na última década, com um aumento superior a 100%, segundo os dados da Eurostat.
Um crescimento que encontra paralelo em poucas cidades europeias, como Zagreb, e que ajuda a explicar o afastamento progressivo de famílias dos centros urbanos.
A realidade nas principais cidades europeias parece não deixar dúvidas: os rendimentos das famílias deixaram de acompanhar o mercado da habitação. E isso levanta uma questão que já não é apenas económica, mas social: quem consegue, hoje, viver nas cidades onde trabalha?
A resposta de Bruxelas
A pressão sobre a habitação está já a obrigar Bruxelas a acelerar respostas políticas. Esta terça-feira, a presidente da Comissão Especial do Parlamento Europeu sobre a crise da habitação (HOUS) alertou que serão necessários “recursos enormes” para enfrentar o problema e defendeu um reforço do investimento público e europeu no setor.
Numa declaração em Bruxelas, após uma conferência de alto nível sobre habitação organizada pela Comissão Europeia e pela comissão HOUS, a eurodeputada italiana Irene Tinagli sublinhou que “este é o momento de agir”.
“Conhecemos o diagnóstico, sabemos o que pode e deve ser feito. Agora temos de passar para o próximo nível. O que toda a gente defendeu é que são necessários recursos: a crise na habitação requer recursos enormes”, afirmou.
A eurodeputada reconheceu que o investimento público não será suficiente por si só para resolver a crise, mas insistiu que é uma peça essencial da solução, sobretudo ao nível das autoridades locais e regionais.
Fonte: Lusa/ Redação
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