João Oliveira

CEO da Realty One Group Portugal

Opinião

Viver sozinho está a tornar-se um luxo silencioso

6 Julho, 2026 · 10:37

Durante muito tempo, viver sozinho foi visto como uma etapa natural da vida adulta. Um sinal de autonomia, de independência, de recomeço. Hoje, essa possibilidade está a transformar-se, de forma silenciosa, num luxo.

Quando falamos de habitação em Portugal, continuamos muito focados no casal que quer comprar casa, na família que procura um T2 ou T3, ou no jovem que tenta entrar no mercado. Mas há uma realidade cada vez mais evidente e ainda pouco discutida: viver sozinho está a tornar-se financeiramente incomportável para um número crescente de pessoas.

E não falamos apenas de jovens no início da vida profissional. Falamos de pessoas separadas que precisam de reorganizar a vida, de profissionais deslocados, de adultos que optam por viver sozinhos e de séniores que procuram manter a sua autonomia. Para todos estes perfis, o mercado continua a penalizar fortemente a habitação suportada por um único rendimento.


"O custo da habitação em Portugal continua, em grande medida, pensado para rendimentos partilhados. Renda ou prestação, contas, transportes, alimentação e todas as restantes despesas tornam-se muito mais pesados quando recaem apenas sobre uma pessoa."


O problema é simples: o custo da habitação em Portugal continua, em grande medida, pensado para rendimentos partilhados. Renda ou prestação, contas, transportes, alimentação e todas as restantes despesas tornam-se muito mais pesados quando recaem apenas sobre uma pessoa. E isso transforma a independência numa equação difícil, mesmo para quem trabalha e tem rendimento estável.

Segundo o idealista, no final de 2025, arrendar casa em Portugal exigia, em média, 80% do rendimento familiar disponível. Na compra, o esforço rondava os 70%. Estes números já são preocupantes para um agregado com mais do que um rendimento. Quando falamos de alguém sozinho, o peso é ainda maior.

A consequência disto é clara: viver sozinho está a deixar de ser uma possibilidade normal em várias fases da vida e está a tornar-se uma exceção para quem consegue suportar esse custo sem comprometer tudo o resto.

É importante dizer isto de forma clara: viver sozinho não é um capricho. É, muitas vezes, uma fase natural da vida. É a saída de casa dos pais, um recomeço depois de uma separação, uma mudança de cidade ou simplesmente uma escolha legítima de autonomia. O problema é que o mercado está a tornar essa possibilidade cada vez menos viável.


"Viver sozinho está a deixar de ser uma possibilidade normal em várias fases da vida e está a tornar-se uma exceção para quem consegue suportar esse custo sem comprometer tudo o resto."


O resultado vê-se na prática. Mais pessoas adiam sair de casa dos pais, prolongam partilhas de casa que não desejam, aceitam soluções que não correspondem à fase de vida em que estão ou adiam recomeços por falta de condições. E isso tem um custo que vai muito além da renda mensal. Tem um custo na liberdade de escolha, na mobilidade e na capacidade de viver com independência.

Talvez um dos maiores problemas do debate sobre habitação seja este: continuamos a olhar para o mercado como se todas as pessoas vivessem em casal ou em família, como se a partilha de rendimentos fosse a norma. Mas a realidade já não é essa. Há mais pessoas a viver sozinhas, mais trajetos de vida fragmentados, mais recomeços e mais envelhecimento autónomo. E, no entanto, continuamos a discutir a habitação com categorias que já não explicam a realidade toda.

Quando viver sozinho se torna financeiramente inviável para uma parte significativa da população, o problema deixa de ser apenas habitacional. Passa a ser também social. Porque a autonomia não devia ser um privilégio, devia ser uma verdadeira possibilidade.

No fundo, o mercado habitacional não está apenas a definir onde as pessoas vivem. Está, em muitos casos, a definir se podem viver sozinhas, quando podem fazê-lo e a que custo. E isso devia preocupar-nos mais do que preocupa.

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