Júlio Quintela

Chief Operations Officer da Zome

Opinião

Viver melhor é o novo luxo

13 Agosto, 2026 · 14:25

Durante muitos anos, comprar casa foi, acima de tudo, uma decisão financeira. O preço, a localização e a dimensão eram os principais fatores de escolha. Hoje, embora continuem a ser determinantes, já não chegam para explicar aquilo que verdadeiramente procuram as famílias.

A casa deixou de ser apenas um património ou um investimento. É o espaço onde trabalhamos, descansamos, convivemos, educamos os filhos e procuramos equilíbrio. É por isso que, cada vez mais, a decisão de compra é também emocional, ambiental e social.

Mais do que encontrar uma casa, as pessoas procuram um projeto de vida. Esta mudança de paradigma é visível nas prioridades de quem hoje entra no mercado imobiliário. A proximidade a escolas, transportes públicos, comércio local, serviços de saúde ou espaços verdes passou a ter um peso tão relevante como a tipologia ou a área do imóvel. O conceito de bairro ganhou uma nova dimensão: já não basta viver numa boa localização, é essencial viver num lugar que facilite o dia a dia, promova a mobilidade e contribua para uma melhor qualidade de vida.


"Mais do que encontrar uma casa, as pessoas procuram um projeto de vida. Esta mudança de paradigma é visível nas prioridades de quem hoje entra no mercado imobiliário".


Uma das mudanças que mais tenho observado é precisamente esta: as famílias começam a avaliar o imóvel a partir da vida que querem ter e não apenas da casa que conseguem comprar. Perguntam quanto tempo vão perder diariamente no trânsito, onde os filhos vão estudar, se conseguem fazer parte das suas rotinas a pé e que serviços encontram à volta. A localização deixou de ser apenas um ponto no mapa. Passou a ser tempo, liberdade e qualidade de vida.

Ao mesmo tempo, também a sustentabilidade deixou de ser um fator secundário. A eficiência energética, a qualidade da construção, o conforto térmico e os custos de utilização da habitação assumem hoje uma importância crescente. Não apenas pela preocupação ambiental, mas porque representam poupança, conforto e uma maior valorização do imóvel a médio e longo prazo.

Esta evolução demonstra que os compradores estão mais informados e fazem escolhas cada vez mais conscientes. A habitação passou a ser encarada como um ecossistema, onde o imóvel, a envolvente, a mobilidade e a sustentabilidade se influenciam mutuamente. Uma casa não termina na porta de entrada, prolonga-se no bairro, nos serviços disponíveis, nas acessibilidades e na comunidade que a rodeia.


"O verdadeiro luxo pode estar na possibilidade de ir a pé buscar os filhos à escola, trabalhar perto de casa, usufruir de um jardim ao final do dia, reduzir o tempo passado no trânsito ou viver numa habitação mais confortável e eficiente."


É precisamente por isso que o conceito de “luxo” também mudou. Hoje, o verdadeiro luxo pode estar na possibilidade de ir a pé buscar os filhos à escola, trabalhar perto de casa, usufruir de um jardim ao final do dia, reduzir o tempo passado no trânsito ou viver numa habitação mais confortável e eficiente.

Um exemplo recorrente é o de famílias que inicialmente procuram uma casa maior e acabam por escolher uma solução com menos área, mas mais próxima da escola dos filhos, dos avós ou do local de trabalho. Quando colocam na balança as horas poupadas em deslocações, o apoio familiar e a possibilidade de fazer parte da rotina diária a pé, percebem que aqueles metros quadrados adicionais nem sempre representam maior qualidade de vida.

Enquanto profissional do setor, tenho acompanhado diariamente esta transformação. Mais do que procurar um determinado tipo de imóvel, os clientes procuram uma determinada forma de viver. Querem casas que respondam às necessidades de hoje, mas também às ambições de amanhã. Procuram qualidade de vida, bem-estar, eficiência e um sentido de pertença ao lugar onde escolhem viver.

Num mercado cada vez mais exigente, acredito que esta será uma das grandes tendências dos próximos anos. A habitação continuará a ser um investimento importante, mas será cada vez mais avaliada pela vida que permite construir e não apenas pelo seu valor patrimonial.

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