
Paulo Lopes
CEO da Casa Iberia
Opinião

CEO da Casa Iberia
Opinião
Quem trabalha há muitos anos no imobiliário aprende a conviver com ciclos de entusiasmo e preocupação. Eu próprio, como profissional do setor, reconheço que nem sempre somos suficientemente críticos quando o mercado cresce, da mesma forma que, por vezes, somos demasiado pessimistas quando surgem sinais de abrandamento. Talvez por isso seja importante olhar para os números atuais com serenidade, sem alarmismo, mas também sem excesso de confiança.
O endividamento das empresas da construção e do imobiliário voltou a ultrapassar os 58 mil milhões de euros, aproximando-se, em valor absoluto, dos níveis de 2013. A comparação impressiona, mas não conta toda a história. Naquela altura, esta dívida representava quase 35% do PIB português; hoje ronda os 19%. As empresas estão mais capitalizadas, o sistema financeiro é mais sólido e o setor tornou-se mais profissional. Não estamos, portanto, perante uma repetição de 2013. Mas seria igualmente imprudente acreditar que aprendemos todas as lições e que os riscos desapareceram.
"Durante anos celebrámos recordes de preços, transações e procura como sinais inequívocos de sucesso. Talvez nem sempre tenhamos perguntado suficientemente se esse crescimento era acompanhado por mais oferta, melhor acesso à habitação e maior equilíbrio."
Portugal precisa de construir mais e isso exige financiamento. Não existe desenvolvimento imobiliário sem capital, crédito e investidores dispostos a assumir risco. O problema não está na dívida em si, mas na qualidade do investimento que ela financia. Há uma enorme diferença entre pedir crédito para construir habitação necessária e sustentável e assumir níveis elevados de alavancagem confiando apenas que os preços continuarão sempre a subir.
Também nós, profissionais do imobiliário, devemos fazer esta reflexão. Durante anos celebrámos recordes de preços, transações e procura como sinais inequívocos de sucesso. Talvez nem sempre tenhamos perguntado suficientemente se esse crescimento era acompanhado por mais oferta, melhor acesso à habitação e maior equilíbrio entre o valor dos imóveis e a capacidade financeira das famílias.
"Confiança não significa ausência de prudência. Talvez o maior sinal de maturidade de um setor seja precisamente a capacidade de olhar criticamente para si próprio quando tudo parece correr bem."
O mesmo se aplica ao crédito à habitação. Facilitar financiamento pode ajudar compradores, mas não cria uma única casa. Se colocarmos mais dinheiro nas mãos da procura sem aumentar a oferta, podemos simplesmente contribuir para preços ainda mais elevados. E permitir que uma família comprometa quase metade do seu rendimento com a prestação da casa também não deve ser confundido com uma verdadeira solução habitacional.
Continuo otimista sobre o imobiliário português. Precisamos de mais investimento, mais construção e mais confiança. Mas confiança não significa ausência de prudência. Talvez o maior sinal de maturidade de um setor seja precisamente a capacidade de olhar criticamente para si próprio quando tudo parece correr bem.
Porque o verdadeiro risco não começa quando surgem os primeiros problemas. Começa quando deixamos de admitir que eles podem existir.