João Oliveira

CEO da Realty One Group Portugal

Opinião

Se podemos imprimir casas em dias, porque é que esperamos anos?

8 Setembro, 2025 · 07:23

A habitação em Portugal tornou-se uma espécie de novela interminável: todos falam da crise, todos prometem soluções, mas a realidade é que o tempo passa e as casas continuam a não chegar. Continuamos presos a um modelo de construção caro, lento e com impacto ambiental gigantesco.  Mas a verdade é que já existe tecnologia capaz de alterar este cenário. A questão é: estaremos dispostos a adotá-la?

Refiro-me à impressão 3D. Não é ficção científica, não é uma utopia. É real, e está a acontecer agora. Em Matosinhos, a startup portuguesa Havelar está a erguer um edifício público de 500m² em apenas uma semana. Uma semana! No Texas, um projeto chamado Zuri Gardens está a criar um bairro com 80 casas parcialmente impressas em 3D, a custos acessíveis para famílias de classe média. E na Austrália, já foi concluído o primeiro edifício multifamiliar 3D em apenas cinco semanas. Estes são exemplos concretos, não meros protótipos.


"Não estamos apenas a falar de uma solução para a falta de habitação. Estamos a falar de uma forma de mudar todo o paradigma da construção, e de alinhar o setor com os objetivos ambientais e sociais do nosso tempo."


Enquanto isso, o setor tradicional continua a justificar atrasos com burocracias, mão de obra escassa e prazos que se arrastam por meses ou anos.

A impressão 3D permite reduzir custos em até 30%, corta o desperdício de materiais em mais de metade, e tem uma pegada ecológica muito inferior. Além disso, permite construir casas adaptadas, eficientes e até personalizadas. Não estamos apenas a falar de uma solução para a falta de habitação.

Estamos a falar de uma forma de mudar todo o paradigma da construção, e de alinhar o setor com os objetivos ambientais e sociais do nosso tempo.

Então, o que nos impede de avançar? A ausência de regulamentação específica, a resistência de algumas entidades financeiras e a desconfiança cultural. Mas a questão é: faz sentido manter estas barreiras quando a crise habitacional já ameaça o bem-estar de milhares de famílias? A meu ver, a sustentabilidade e a inovação não podem ficar eternamente nos discursos, têm de se traduzir em ação.


"Portugal tem aqui uma oportunidade única. Podemos escolher ser pioneiros e integrar esta tecnologia nas políticas de habitação e urbanismo sustentável, ou podemos assistir de fora."


Portugal tem aqui uma oportunidade única. Podemos escolher ser pioneiros e integrar esta tecnologia nas políticas de habitação e urbanismo sustentável, ou podemos assistir de fora, enquanto outros países avançam e provam que é possível. Porque a decisão não é apenas técnica, é política, cultural e até de visão de futuro.

Na minha opinião, não se trata de perguntar se a impressão 3D vai transformar o imobiliário. Trata-se de perceber quando vamos ter coragem de a assumir como parte da solução. Porque o futuro da habitação já começou a ser impresso. Cabe-nos a nós decidir se queremos habitá-lo ou continuar a observá-lo de longe.

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