Ricardo Costa

CEO da LUXIMOS Christie´s International Real Estate

Opinião

Quando o mundo treme, o imobiliário respira fundo

14 Janeiro, 2026 · 10:11

Há momentos na história em que o mundo parece um tabuleiro de xadrez jogado por mãos impacientes. As peças avançam depressa demais, outras tombam sem aviso, e nós – investidores, compradores, famílias à procura de um porto seguro – ficamos a tentar perceber se estamos perante uma jogada brilhante ou apenas mais um lance arriscado. Hoje, esse tabuleiro tem nomes bem conhecidos: Estados Unidos, Venezuela, Gaza, Colômbia, Panamá… e até a longínqua Gronelândia, que regressa ciclicamente às manchetes dos jornais como se fosse um prémio de consolação geopolítico.

No centro deste turbilhão está Donald Trump, cuja influência global, goste‑se ou não, tem o condão de mexer com mercados, expectativas e nervos. E quando a política abana, o imobiliário sente o tremor debaixo dos pés. Mas, como economista, aprendi cedo que os mercados não têm apenas medo de más notícias. Têm medo, sobretudo, da imprevisibilidade.

Se Washington endurecer a sua postura sobre a Venezuela, por exemplo, o impacto imediato será sentido no petróleo. E quando o petróleo oscila, tudo o resto oscila com ele: inflação, taxas de juro, custo de financiamento e confiança dos investidores. É um efeito dominó que começa num barril e acaba numa hipoteca.

No caso de Gaza, o risco é diferente, mas não menos relevante. A instabilidade prolongada no Médio Oriente tende a pressionar os mercados energéticos e a aumentar a aversão global ao risco. Os investidores institucionais retraem‑se, os fundos imobiliários tornam‑se mais cautelosos e o capital procura portos seguros. Na verdadeira aceção da palavra.


"Em momentos de incerteza global, o imobiliário de gama média‑alta e de luxo tende a comportar‑se como um ativo de refúgio. Pode não disparar, mas também não cai. Mantém‑se sólido, como uma âncora num mar agitado."


E é aqui que a Europa entra no mapa, não como protagonista, mas como parte de um contexto mais amplo. Portugal é hoje o 7.º país mais seguro do mundo, segundo o Global Peace Index 2025, surgindo logo a seguir à Dinamarca, que, ironicamente, começa o ano envolta em incerteza e instabilidade devido às tensões e ameaças relacionadas com a Gronelândia. Este contraste ajuda a explicar que, num mundo em sobressalto, há poucos países com estabilidade e segurança permanentes. E essa escassez torna‑os mais valiosos.

Nos últimos anos, tenho visto investidores norte‑americanos, europeus e latino‑americanos a escolherem Portugal não apenas como destino de férias, mas como lugar para viverem. E acredito que, quanto mais imprevisível o mundo se tornar, mais essa procura tenderá a manter‑se. Não por sermos excecionais, mas por termos estabilidade e sermos mais previsíveis.

Do ponto de vista financeiro, há três efeitos que merecem atenção.

O primeiro é a valorização dos ativos prime. Em momentos de incerteza global, o imobiliário de gama média‑alta e de luxo tende a comportar‑se como um ativo de refúgio. Pode não disparar, mas também não cai. Mantém‑se sólido, como uma âncora num mar agitado. E, para muitos investidores, essa solidez vale mais do que qualquer promessa de valorização rápida.

O segundo é a pressão sobre a procura internacional. Se houver instabilidade no continente Americano, veremos mais famílias a procurar segurança na Europa. Se houver tensão nos EUA, veremos mais investidores a diversificar património. Portugal surge frequentemente nesse radar, mas não é o único destino, é apenas um dos que oferecem estabilidade num momento em que ela é escassa. E, como sempre, o capital segue a estabilidade.

O terceiro efeito é cambial. Muito se especula sobre o dólar em períodos de política externa mais agressiva, mas a verdade é simples: ninguém sabe como o dólar irá comportar‑se. Pode valorizar, pode estabilizar, pode até surpreender. E essa incerteza cambial é, por si só, um fator que influencia decisões de investimento, sobretudo em mercados internacionais.


"Quem compra casa não compra apenas um ativo, compra um lugar para viver, para proteger a família, para construir futuro. E, quando o mundo treme, esse instinto de proteção torna‑se ainda mais evidente."


Mas há um elemento que raramente entra nas análises económicas e que, no entanto, pesa tanto quanto os gráficos: o fator humano. Quem compra casa não compra apenas um ativo, compra um lugar para viver, para proteger a família, para construir futuro. E, quando o mundo treme, esse instinto de proteção torna‑se ainda mais evidente. A casa volta a ser aquilo que sempre foi: o último reduto da estabilidade.

Se Trump decidir “estender a mão” a tabuleiros em vários países, os mercados reagirão como sempre reagiram: com cautela, volatilidade e alguma ansiedade. Mas, no meio desse ruído, o essencial mantém‑se: quem procura estabilidade continuará a procurá‑la, e quem investe continuará a fazê‑lo com base em confiança.

No fim de contas, a melhor forma de enfrentar um mundo imprevisível é escolher um lugar previsível para viver. E, felizmente, ainda existem alguns. A história mostra‑nos que, quando o mundo treme, não é quem corre mais depressa que fica em pé. É quem sabe onde colocar os pés.

Destaques Casa Yes

Arquitetura

“Habitar Portugal”: 100 obras de arquitetura em 50 anos de democracia

Comprar Casa

Como tirar a máscara a uma casa na primeira visita

A casa pode estar disfarçada, mas há sinais que não enganam.

Investimento

Investimento imobiliário cresce 22% e reforça atratividade do mercado nacional

O investimento imobiliário em Portugal totalizou 2,8 mil milhões de euros em 2025.