João Oliveira
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
Nos últimos anos, habituámo-nos a ouvir que os preços das casas estão altos. Tão habituados que começámos, quase sem dar conta, a aceitar essa realidade como inevitável, como se fosse normal uma família trabalhar todos os dias e, ainda assim, sentir que comprar casa está cada vez mais longe.
Mas a verdade é que não é normal.
Hoje, em várias cidades portuguesas, o acesso à habitação deixou de ser apenas um desafio para se transformar numa corrida desigual entre aquilo que as famílias conseguem ganhar e aquilo que o mercado lhes exige. Os dados mais recentes do Banco de Portugal mostram isso de forma clara: comprar casa em Portugal já exige um esforço superior a 40% do rendimento mediano das famílias e, em Lisboa, esse valor ultrapassa mesmo os 100%.
Na prática, isto significa que muitas famílias já nem conseguem suportar a prestação de uma habitação de valor mediano apenas com o seu rendimento mensal. E o mais preocupante é que esta realidade deixou há muito de estar limitada aos grandes centros urbanos.
Se em 2019 apenas nove municípios ultrapassavam a chamada “taxa de esforço crítica”, em 2023 esse número subiu para 104 municípios, demonstrando que a pressão sobre o acesso à habitação se espalhou progressivamente por todo o país. Ao mesmo tempo, os preços das casas continuam a crescer muito acima da evolução dos salários. Entre 2016 e 2025, os preços da habitação aumentaram cerca de 140%, enquanto os rendimentos das famílias ficaram muito aquém desse crescimento.
"O acesso à habitação deixou de ser apenas um desafio para se transformar numa corrida desigual entre aquilo que as famílias conseguem ganhar e aquilo que o mercado lhes exige."
Talvez seja precisamente aqui que surge o maior problema: começámos a olhar para estes números com normalidade. Normalizamos jovens adultos que adiam sair de casa dos pais porque não conseguem criar estabilidade financeira. Normalizamos famílias que se afastam dezenas de quilómetros do local de trabalho para conseguirem encontrar uma casa compatível com o seu orçamento. E normalizamos a ideia de que viver com qualidade nas grandes cidades é, cada vez mais, um privilégio reservado a poucos.
No entanto, o acesso à habitação nunca deveria ser visto como um luxo.
É importante olhar para este tema com equilíbrio e reconhecer que o mercado imobiliário português continua forte, dinâmico e atrativo. Portugal continua a captar investimento, continua a gerar procura e continua a ser reconhecido internacionalmente pela qualidade de vida que oferece. Tudo isso é positivo e demonstra a força do nosso mercado.
O problema surge quando esse crescimento deixa de acompanhar a realidade das pessoas que vivem e trabalham no país. Porque uma cidade não cresce verdadeiramente se quem trabalha nela deixa de conseguir viver lá.
E é precisamente por isso que o debate sobre habitação precisa de deixar de se centrar apenas em medidas temporárias ou soluções imediatas. O verdadeiro desafio passa por aumentar a oferta, acelerar processos de licenciamento, promover nova construção, reabilitar património devoluto e criar condições para que as cidades consigam crescer de forma sustentável e equilibrada.
"O problema surge quando esse crescimento deixa de acompanhar a realidade das pessoas que vivem e trabalham no país. Porque uma cidade não cresce verdadeiramente se quem trabalha nela deixa de conseguir viver lá."
O setor imobiliário tem, naturalmente, um papel importante nesta transformação, mas esta é uma responsabilidade que exige também visão estratégica, rapidez de execução e capacidade de pensar o país a longo prazo.
A habitação não pode continuar a ser um tema discutido apenas quando os números batem recordes, porque por trás de cada estatística existe sempre uma realidade humana: uma família à procura de estabilidade, um jovem à procura de independência ou alguém que simplesmente quer construir uma vida com segurança e tranquilidade.
E talvez a pergunta mais importante que devamos fazer neste momento seja esta: se trabalhar já não chega para conseguir viver perto daquilo que construímos, que futuro estamos realmente a criar para as próximas gerações?