João Miguel Louro
Managing Broker da eXp Realty
Opinião
Managing Broker da eXp Realty
Opinião
Como um teste de dez minutos me mostrou que a informação certa já estava no CRM — e por que nenhum campo obrigatório nos salva daquilo que inventamos.
Escrevo aqui todos os meses sobre tecnologia e mediação imobiliária. Desta vez decidi não escrever sobre teoria.
Peguei numa angariação e reduzi-a ao osso: área do lote, área útil, área do armazém, tem poço. Colei essas quatro linhas no ChatGPT e no Gemini com o pedido mais banal que consegui escrever — “escreve o texto do anúncio para este imóvel” — e não disse mais nada. Sem contexto, sem instruções, sem prompt sofisticado. Exatamente aquilo que qualquer um de nós faz às onze da noite, com trinta imóveis por publicar.
Alterei os números e não digo onde é. Não me interessa expor um anúncio nem uma pessoa. Interessa-me o hábito — e o hábito também é meu.
As duas responderam em segundos. Textos limpos, bem construídos, prontos a colar num portal.
E era aqui que eu ia escrever a comparação do costume: qual escreve melhor, qual soa mais profissional, qual devem usar. Acredito que é a pergunta errada.
A pergunta certa é outra. O que é que nenhuma delas perguntou?
Nenhuma perguntou a tipologia. Nem quantas casas de banho. Nem o ano de construção, nem o estado de conservação, nem se é habitável amanhã ou se precisa de obra. Parem um segundo nisto: as duas escreveram um anúncio completo, convincente, apelativo — de uma casa cuja tipologia continua por saber.
Diferenças houve. Uma manteve-se colada aos números que lhe dei. A outra inventou uma dezena de coisas: descreveu o interior como acolhedor sem lá ter entrado, disse que estava pronto a adaptar, sugeriu piscina, prometeu escolas e acessos que eu nunca mencionei.
"Antes de abrir seja o que for, escrevo à mão aquilo que sei do imóvel e, sobretudo, aquilo que ainda não sei. Só depois peço ajuda. A ferramenta escreve depressa. Ver continua a demorar o mesmo tempo de sempre."
Fui depois abrir a ficha do imóvel. A casa é dos anos cinquenta, está classificada para recuperar e não tem aquecimento. Acolhedor. Pronto a adaptar. Isto não é uma invenção arriscada — é uma invenção falsa.
Ia também à procura de português do Brasil, convencido de que ia apanhar banheiros e sacadas. Não apanhei nenhum. As duas escreveram português europeu correto. Enganei-me, e digo-o porque a única coisa pior do que um teste mal feito é um teste feito para confirmar aquilo que já se pensava.
Mas há um risco que convém nomear. Nenhum dos dois textos indica a classe energética. O Decreto-Lei 101-D/2020 é claro: a classe tem de constar do anúncio, e a responsabilidade de garantir que consta é da empresa de mediação. Para pessoas coletivas, a coima pode aproximar-se dos 45 mil euros. Ou seja, os dois textos que recebi eram, tal e qual, impublicáveis.
O que impediu que fossem publicados assim não foi o modelo. Não fui eu. Foi um campo obrigatório no CRM que não deixa avançar sem estar preenchido. A salvaguarda foi processual. Foi um formulário.
E os formulários só apanham metade do problema. Os campos obrigatórios protegem-nos daquilo que esquecemos. Não protegem de nada daquilo que inventamos. Nenhum CRM tem um campo que impeça a palavra acolhedor.
E reparem onde é que decidimos pôr as nossas garantias. O portal assinala a fotografia com a etiqueta de foto editada com inteligência artificial. A imagem leva aviso. O texto não leva nenhum. Damos mais garantias sobre uma fachada tratada do que sobre a frase que diz ao comprador que aquela casa é perfeita para ele.
"Peguem no vosso último anúncio publicado e contem quantas perguntas de um comprador ele responde antes do telefonema. Se a resposta for nenhuma, o problema não estava na ferramenta."
Agora a parte incómoda. Fui reler o descritivo que já existia para aquele imóvel, escrito por uma pessoa. Também não tem tipologia. Também chama à casa perfeita para uma família e diz que reúne qualidade — a propósito de uma construção dos anos cinquenta, para recuperar, com uma única casa de banho. E toda essa informação estava preenchida no CRM, a dois campos de distância de quem escreveu o texto.
A informação nunca faltou. Só não atravessou os dez centímetros que separam a ficha do texto que o comprador lê.
Os três textos convergem no mesmo sítio. E dois deles são máquinas.
A inteligência artificial não trouxe a mediocridade para os nossos descritivos. Encontrou-a instalada — e limitou-se a produzi-la em quinze segundos.
Foi por isso que mudei a ordem do meu trabalho. Antes de abrir seja o que for, escrevo à mão aquilo que sei do imóvel e, sobretudo, aquilo que ainda não sei. Só depois peço ajuda. A ferramenta escreve depressa. Ver continua a demorar o mesmo tempo de sempre.
Fica o convite: peguem no vosso último anúncio publicado e contem quantas perguntas de um comprador ele responde antes do telefonema. Se a resposta for nenhuma, o problema não estava na ferramenta.
A tecnologia já escreve por nós. A confiança é que não se fabrica. Não se fabrica.