Luís Mário Nunes
CEO da ComprarCasa Portugal e Espanha
Opinião
CEO da ComprarCasa Portugal e Espanha
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Aproxima-se um dos períodos de férias mais importantes do ano e, com ele, um dos fenómenos mais curiosos e contraditórios da nossa sociedade: observar como dois tipos de trabalhadores, aparentemente opostos, se transformam ao entrar em modo “descanso”.
Por um lado, temos os workaholics, esses profissionais hiperconectados que vão de férias com o portátil na mochila e o e-mail ativado “só para emergências” (embora tudo seja uma emergência para eles). Não sabem desligar. Sentem-se culpados. Estão presos numa prisão que eles próprios construíram… e perderam a chave com orgulho. Sentem-se uma “espécie superior” face às hordas de preguiçosos que anseiam pelas férias para se desligarem.
Por outro lado, estão os condenados a trabalhar, aqueles que passam o ano inteiro a contar os dias para as férias como se fossem a liberdade condicional de uma pena perpétua. Os que não suportam o seu trabalho, mas o aguentam porque há contas para pagar. A esperança de liberdade está sempre adiada: “já falta pouco para as férias” é a frase que mais repetem.
Duas tribos que parecem opostas, mas que, no fundo, partilham o mesmo problema: uma relação pouco saudável com o trabalho e, por extensão, com o descanso. Os primeiros não sabem parar. Os segundos não sabem viver enquanto esperam poder parar.
Hoje, tentarei falar dessa escravidão emocional que se infiltra até no tempo livre. Da culpa de não ser produtivo. Da ansiedade de “aproveitar bem” as férias. Do paradoxo de descansar com pressa e de como transformámos o lazer em mais um KPI.
Desligar não devia ser um ato de heroísmo. Nem ir de férias, uma licença temporária para sair da prisão. O problema não é parar. O problema é não saberes quem és quando paras. O que fazer com a tua vida quando não tens de trabalhar. Ou que vida terias se não tivesses o teu trabalho atual.
Quer se identifiquem com o grupo 1, quer com o grupo 2, este artigo é para vocês. Se querem perceber em qual dos dois perfis se encaixam e, sobretudo, se desejam melhorar a relação com o trabalho, desafio-vos a acompanharem-me nestas próximas linhas.
"O problema não é parar. O problema é não saberes quem és quando paras. O que fazer com a tua vida quando não tens de trabalhar. Ou que vida terias se não tivesses o teu trabalho atual."
Primeiro grupo: os workaholics e a culpa de parar
Eles estão lá. Na praia, na montanha, num bar de praia onde se respira paz e tranquilidade. Mas não desfrutam. Estão a responder e-mails entre cervejas. A fazer “uma chamada rápida” antes do jantar. A rever relatórios enquanto a família brinca na piscina sem eles. Não é que tenham de o fazer. É que não conseguem evitar.
Os workaholics não estão acorrentados a uma secretária, estão presos a um modelo mental. Fizeram do trabalho o seu centro de gravidade. E o mais triste: acreditam que isso os torna melhores. Mais comprometidos. Mais valiosos. Mais “profissionais”.
Convencem-se de que ninguém pode parar totalmente. Que o mundo desabaria se não responderem a esse e-mail. Que rever um relatório no telemóvel “também não é nada de mais”. E por baixo desse discurso há uma verdade mais dolorosa: têm medo de parar porque não sabem quem são quando não estão a trabalhar.
Muitos interiorizaram a ideia de que produzir é existir. Que se não contribuem com algo tangível, perdem valor. Que descansar é para fracos ou conformistas. Confundiram compromisso com dependência. Produtividade com vício. Responsabilidade com culpa.
Porque sim, o que sentem nas férias não é tranquilidade: é culpa. Culpa por não estarem a par. Por não serem úteis. Por não estarem “presentes”. Sentem-se deslocados, até irritáveis.
Os workaholics não sabem o que fazer com o tempo livre, nem com a mente quando não há tarefas para riscar. É a síndrome de abstinência do desempenho.
E aqui está o paradoxo: quanto mais precisam de descansar, mais se castigam por o fazer. Quanto mais lhes faria bem desligar, mais culpados se sentem por tentar. E assim, as férias tornam-se num campo de batalha silencioso entre o corpo que pede pausa e a mente que exige continuar.
Não são preguiçosos disfarçados. Não estão a fingir. Simplesmente não sabem parar. Porque confundiram o seu valor pessoal com o seu nível de ocupação. E isso, mais do que uma distorção, é uma ferida. A prisão não está no escritório. Está na cabeça. E as grades não são de aço, mas de crenças falsas.
Segundo grupo: os condenados a viver à espera das férias
No outro extremo estão os que não vivem para trabalhar, mas trabalham para sobreviver. Os que marcam cada segunda-feira como mais um “tic” na contagem decrescente. Os que transformaram as férias na sua única janela de liberdade, na sua única fonte de sentido. O seu mantra é simples e repetido até à exaustão: “já falta pouco”.
Não é que estejam saturados. É que estão exaustos o tempo todo. Vivem o ano em modo poupança de energia, resistindo o mínimo necessário, funcionando por inércia. Levantam-se todos os dias não por entusiasmo, mas porque têm de o fazer. E construíram a sua relação com o trabalho com base numa lógica de resistência: aguentar até sexta-feira, até ao próximo feriado…
"Sejamos honestos: todos somos escravos de algo. Mas a diferença não está em trabalhar mais ou menos, nem em acumular dias livres, mas em escolher com consciência a que decidimos entregar-nos."
Pergunta-te quem és sem o teu papel profissional
Não como exercício esotérico, mas como reflexão necessária. Se todo o teu valor está no que produzes, o que sobra de ti quando não produzes? Se o teu círculo te valoriza pelo que ganhas ou pelo cargo que ocupas, estás rodeado das pessoas erradas.
Para os condenados a trabalhar
E para ambos: concede-te a liberdade
A verdadeira liberdade não está nas férias. Está na capacidade de escolher, com consciência, como queres viver cada dia. Em decidir a que dedicas o teu tempo, a tua energia, a tua presença. Em saber dizer “não” ao que te desgasta. E dizer “sim”, com firmeza, ao que verdadeiramente te nutre. Em lembrar-te de que és muito mais do que o teu trabalho.
As férias deviam ser uma pausa numa vida com sentido, não a única janela de oxigénio numa existência que te sufoca.
Porque sejamos honestos: todos somos escravos de algo. Mas a diferença não está em trabalhar mais ou menos, nem em acumular dias livres, mas em escolher com consciência a que decidimos entregar-nos. Em como equilibramos os nossos 4 D’s: Dedicação, Descanso, Desconexão e Diversão. Sem perder o rumo. Sem te perderes a ti.
E o mais importante: estamos sempre a tempo de voltar a escolher. De largar as inércias. De rever as nossas prioridades. De redesenhar a relação que temos com o tempo, com o trabalho… e connosco próprios.
Porque o verdadeiro descanso não é deixar de trabalhar. É deixar de fugir de ti próprio. E isso, acredita, não começa nas férias. Começa quando decides escutar-te. E dar ouvidos a ti mesmo.