Luís Mário Nunes

CEO da ComprarCasa Portugal e Espanha

Opinião

O salário não é tudo

24 Julho, 2025 · 11:21

Há algo que muitas empresas — senão a maioria — ainda não compreenderam completamente…

…o salário pode atrair, pode até fazer com que alguém permaneça por um tempo, mas, por si só, o salário nunca fideliza. E menos ainda quando falamos de talento com discernimento, com opções e com consciência.

Se contrata profissionais com ambição, com vontade de crescer, de deixar marca, de influenciar positivamente o futuro da organização para a qual trabalham — pessoas que não procuram apenas estabilidade, mas sim impacto — e que esperam que esse impacto seja reconhecido, esqueça a ideia de fidelizar apenas com um bom salário.

Ainda assim, continuo a encontrar líderes convencidos de que as suas equipas deveriam estar mais comprometidas… porque são bem remuneradas. Não percebem que pagar bem já não garante equipas comprometidas. Hoje, pagar bem pode garantir permanência — com sorte. Garante que as pessoas façam o que lhes compete, mas sem alma.

Este é um problema que afeta a maioria das empresas atualmente. Têm colaboradores que cumprem, mas que não se comprometem. Porque sabem que cumprir garante o salário. É apenas uma estratégia de sobrevivência.

Compromisso é outra coisa. Compromisso é quando a equipa permanece mesmo quando algo corre mal, porque acredita que vale a pena o esforço. É sentir que o que se faz tem valor e, sobretudo, sentido — mesmo que ninguém o diga. É não desistir quando o mais fácil seria fugir. E isso, goste ou não, não se compra com um salário.

O vínculo real — aquele que chamamos de “compromisso” — constrói-se com coerência. Com liderança que escuta, de verdade. Com uma cultura que promove espaços seguros onde se pode dizer “isto não está a funcionar” sem se tornar o inimigo. Com decisões consistentes, que demonstram que o que se prega pratica-se. Por todos. Onde o compromisso não é unidirecional, mas mútuo.

Se lidera a área de pessoas ou ocupa uma posição executiva, e há algum tempo se questiona por que razão a sua equipa cumpre, mas não se compromete verdadeiramente, então acompanhe-me até ao final deste artigo. Vou partilhar aqueles que considero os cinco pilares que sustentam o compromisso autêntico.


"Pagar bem já não garante equipas comprometidas. Hoje, pagar bem pode garantir permanência — com sorte. Garante que as pessoas façam o que lhes compete, mas sem alma."


Que o salário já não é suficiente para fidelizar talento não é uma intuição — é um facto. O relatório Bem-estar e Talento 2025, elaborado pela Factorial, confirma-o:


  • 87 % dos profissionais entrevistados afirmam valorizar tanto ou mais os intangíveis do que o salário.

  • 43 % asseguram que os benefícios sociais têm um peso determinante na decisão de permanecer ou não numa empresa.


Estes dados marcam um ponto de viragem. Já não basta pagar bem.

Hoje, o vínculo entre uma pessoa e o seu trabalho depende, cada vez mais, de como se sente cuidada, ouvida e respeitada. O salário continua a ser importante, claro. Mas já não é o único — nem sequer o principal — para certos perfis.

Por isso, benefícios sociais bem desenhados e geridos não são um extra, nem uma forma de maquilhagem emocional. São uma ferramenta estratégica para fidelizar talento e gerar compromisso real. Quando estão alinhados com a cultura, o propósito e as necessidades genuínas das pessoas, fazem a diferença. Quando não estão, geram mais frustração do que entusiasmo.

A chave não está em quanto se oferece, mas sim em se o que se oferece faz sentido.

O mesmo relatório reforça com dados claros: Pessoas que recebem benefícios relevantes para a sua vida apresentam um aumento de 22 pontos na satisfação e 24 no compromisso, e a sua intenção de mudar de empresa reduz-se para metade.

Estes dados não devem passar despercebidos a quem ocupa posições de responsabilidade. Não estamos a falar de um tema menor. Estamos a falar de impacto emocional, cultural e económico para toda a organização.

Um dado importante: Mais de um terço dos colaboradores afirma não receber os benefícios que realmente precisa ou valoriza. E entre 18 % e 33 % das empresas reconhecem que poderiam oferecer mais… mas não o fazem. Não por custo, mas por falta de estratégia, agilidade ou escuta por parte de quem lidera.

Este é o verdadeiro motivo pelo qual muitos programas de benefícios falham: Porque são geridos como promoções, e não como parte de uma visão coerente de cultura e bem-estar.

Não se trata de quantos benefícios estão incluídos, mas sim de se respondem à realidade vivida na empresa. Ao exemplo dado por quem lidera. Há, ou não há, cabeça e coração por trás dessa oferta.

Promover o bem-estar não pode ser uma campanha de marketing para mitigar o impacto da rotatividade, enquanto a alta direção perpetua as dinâmicas que levam as pessoas a sair.

Benefícios sociais podem ser muito eficazes se forem bem desenhados e integrados com honestidade na cultura da empresa. Não substituem a coerência, mas podem acompanhá-la. E aí reside o seu verdadeiro valor.


"As pessoas não ficam pelo que recebem, mas pelo que sentem. E isso não depende da quantidade de benefícios, mas sim da qualidade do vínculo."


As pessoas não ficam pelo que recebem, mas pelo que sentem. E isso não depende da quantidade de benefícios, mas sim da qualidade do vínculo.

Esse vínculo constrói-se com cinco pilares que não aparecem em nenhum catálogo, mas que definem se alguém fica ou parte:


  1. Cuidado


Não o cuidado delegado a uma agência de comunicação interna, nem o que se distribui em emails institucionais. Falo de cuidado real: aquele que se expressa nas decisões, que se nota quando alguém tem um dia difícil, que protege sem infantilizar. O relatório é claro: 40 % das pessoas que saem fazem-no porque sentem que o seu bem-estar emocional não importa. E mais de metade acredita que a empresa nem sequer entende o que precisa. Não saem por raiva — saem por desilusão.

2. Escuta

Mas não aquela escuta enlatada das sondagens que ninguém lê. Falo da escuta que incomoda, que permite questionar, que abre espaço para dizer “isto não está a funcionar” sem medo de represálias. Onde há escuta verdadeira, há mais compromisso, mais ideias, mais vida.

3. Desenvolvimento

Segundo o relatório, um em cada três colaboradores mudaria de empresa, mesmo sem aumento salarial, se isso lhe garantisse aprendizagem.

Não falamos de promoções eternas, mas de desafios, de líderes que não competem com a equipa, mas que a potenciam. A falta de desenvolvimento não desmotiva — desconecta.

4. Respeito pelo tempo

Pelo tempo de vida, não apenas pelo de trabalho. 61 % dos entrevistados afirmam que a flexibilidade pesa mais do que o salário na decisão de permanecer ou não. Não se trata de trabalhar menos, mas de poder viver mais.

Quem sente que tem de escolher entre trabalhar bem ou viver bem, acaba por se afastar de ambos.

5. O quinto pilar é o propósito

Não o propósito que está pendurado na parede ou que brilha num slide de PowerPoint, mas aquele que se sente nas prioridades, nas decisões, nos pequenos gestos do dia a dia. Quando as pessoas percebem que o seu trabalho serve para algo mais do que maximizar lucros, criam ligação. Quando sentem que estão apenas a enriquecer outros, desligam-se.

Estas são as razões pelas quais alguém permanece numa empresa, dando o seu melhor.

Hoje, as pessoas já não permanecem num emprego por medo. Nem por rotina. Ficam porque se sentem bem. Porque sentem que contam. Porque o que fazem tem sentido. E isso, nenhum aumento salarial consegue comprar.

Conclusão

O salário importa, claro. Os benefícios também. Mas nenhum dos dois é suficiente por si só se não houver algo mais profundo a sustentá-los:

Uma cultura coerente, uma liderança consciente e uma relação baseada no respeito, no propósito e na verdade.

Podemos rever os salários, enriquecer os benefícios ou melhorar a comunicação…

Mas se tudo isso não estiver alinhado com o que a sua equipa vive, sente e precisa no dia a dia, não vai fidelizar talento. Estará apenas a maquilhar a imagem da sua empresa.

Por isso, se lidera a área de pessoas ou ocupa uma posição executiva e quer construir compromisso, incorpore ferramentas que façam com que a sua equipa se sinta segura para falar, motivada para crescer e orgulhosa de contribuir para algo que vai além da sua tarefa diária.

As empresas que compreendem isto não querem que as pessoas fiquem por medo de perder o que têm. Querem que escolham ficar porque acreditam no que estão a construir em conjunto. Porque existe ali um “nós” que vale a pena.

Em resumo…. Cria uma cultura de empresa, independentemente, do vínculo laboral que tenhas com os teus colaboradores!

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