
Patrícia Santos
Chairwoman Zome
Opinião

Chairwoman Zome
Opinião
Ao longo dos últimos anos, habituámo-nos a olhar para o mercado imobiliário quase exclusivamente através de um indicador: o preço das casas. Sempre que os preços subiam, falava-se de aquecimento do mercado; quando abrandavam, antecipava-se uma quebra da procura. No entanto, o primeiro semestre de 2026 mostra-nos uma realidade bastante mais complexa e, em muitos aspetos, mais positiva.
Mais do que um mercado em aceleração ou em desaceleração, estamos perante um mercado que começa a encontrar um novo equilíbrio. Um mercado onde as decisões são mais ponderadas, os compradores mais informados e os investidores mais seletivos. E isso é, na verdade, um sinal de maturidade.
Esta evolução resulta, desde logo, de um contexto económico mais estável. Depois de um período marcado por fortes oscilações das taxas de juro, as famílias voltaram a encontrar alguma previsibilidade nas condições de financiamento. Embora o acesso ao crédito continue a exigir rigor e capacidade financeira, a estabilização das Euribor devolveu confiança a muitos compradores que tinham optado por adiar a decisão de comprar casa.
Na Zome, temos sentido precisamente esse regresso da confiança. Continuamos a acompanhar famílias que querem comprar casa, mas que hoje chegam ao mercado muito mais preparadas. Informam-se, comparam soluções, analisam cuidadosamente o esforço financeiro e procuram fazer escolhas sustentáveis a longo prazo. É um comportamento diferente daquele que observávamos há alguns anos, mas que traduz uma relação mais consciente com uma das decisões mais importantes da vida.
"Os desafios permanecem evidentes. A oferta continua limitada em muitas zonas do país e os preços mantêm-se elevados, o que significa que a acessibilidade à habitação continua a ser uma das principais preocupações das novas gerações."
Entre os sinais mais encorajadores deste primeiro semestre está também a evolução da procura por parte dos compradores mais jovens. As medidas de apoio à aquisição da primeira habitação, nomeadamente os mecanismos de garantia pública e outras iniciativas destinadas a facilitar o acesso ao crédito, contribuíram para devolver alguma dinâmica a um segmento que enfrentava enormes dificuldades em entrar no mercado.
Apesar disso, os desafios permanecem evidentes. A oferta continua limitada em muitas zonas do país e os preços mantêm-se elevados, o que significa que a acessibilidade à habitação continua a ser uma das principais preocupações das novas gerações.
Também do lado do investimento assistimos a uma evolução interessante. Portugal continua a afirmar-se como um mercado atrativo para investidores internacionais, mas o perfil desse investimento mudou. Hoje encontramos investidores mais exigentes, que privilegiam ativos de qualidade, projetos sustentáveis e potencial de valorização a longo prazo. Em simultâneo, verificamos um mercado interno mais ativo, impulsionado por famílias que continuam a encarar a compra de casa como uma forma de construir património e garantir estabilidade.
Esta coexistência entre procura nacional e investimento internacional demonstra que o mercado português continua diversificado e resiliente. Mais do que competir entre si, estes diferentes perfis de compradores contribuem para um mercado mais equilibrado e menos dependente de um único fator de crescimento.
"O mercado imobiliário sempre foi um dos principais termómetros da economia portuguesa. Mas talvez hoje revele algo ainda mais importante do que a evolução dos preços ou o volume de investimento: revela o nível de confiança das pessoas."
Naturalmente, esta realidade continua a refletir-se na evolução dos preços. Embora o ritmo de valorização tenha vindo a moderar, não assistimos a uma inversão da tendência. A principal explicação continua a ser o desequilíbrio entre a procura e a oferta disponível, particularmente nos grandes centros urbanos e nas zonas de maior pressão habitacional. Hoje, mais do que discutir se os preços vão subir ou descer, importa compreender que o verdadeiro desafio passa por aumentar a oferta e criar condições para responder às necessidades de quem procura habitação.
Olhando para o futuro, e considerando desde já o último trimestre de 2026, a expectativa é de continuidade. Se o contexto macroeconómico se mantiver relativamente estável e não existirem alterações significativas na política monetária, tudo indica que o mercado continuará a evoluir de forma sustentada. Não esperamos regressar aos ritmos excecionais do passado recente, mas isso não significa perda de dinamismo. Pelo contrário. Um mercado mais previsível, mais informado e mais equilibrado oferece melhores condições para compradores, vendedores e investidores.
O mercado imobiliário sempre foi um dos principais termómetros da economia portuguesa. Mas talvez hoje revele algo ainda mais importante do que a evolução dos preços ou o volume de investimento: revela o nível de confiança das pessoas. Comprar casa continua a ser um dos maiores projetos de vida das famílias. E quando, mesmo perante um contexto mais exigente, continuam a existir pessoas dispostas a dar esse passo, isso significa que continuam a acreditar no futuro.
Talvez seja essa a principal mensagem que o primeiro semestre de 2026 nos deixa. Mais do que um mercado em crescimento ou em ajustamento, temos hoje um mercado mais consciente, mais exigente e, acima de tudo, mais maduro. E essa poderá ser a melhor base para garantir um desenvolvimento sustentável do setor nos próximos anos.