Patrícia Barão
Partner Residential na Dils Portugal/ Presidente da APEMIP
Opinião
Partner Residential na Dils Portugal/ Presidente da APEMIP
Opinião
Durante décadas, o crescimento urbano em Portugal foi amplamente centrado nos núcleos históricos de Lisboa e Porto. Hoje, esse paradigma está a mudar de forma estrutural. A escassez de solo, a pressão sobre os preços e a transformação das necessidades habitacionais estão a redefinir o mapa das cidades e a deslocar o foco para territórios mais periféricos.
Mais do que um movimento circunstancial, estamos perante uma reconfiguração profunda dos sistemas urbanos. As chamadas “periferias” deixaram de ser vistas como alternativas de segunda linha e “bairros dormitórios” para assumirem um papel cada vez mais central no desenvolvimento imobiliário e na forma como se vive a cidade.
Nos centros urbanos tradicionais, os constrangimentos são evidentes. A disponibilidade de terrenos para construção nova é limitada e os custos associados, desde aquisição a licenciamento, são elevados. A reabilitação urbana tem contribuído para revitalizar zonas históricas, mas dificilmente consegue responder, em escala, à procura crescente por habitação. E todos sabemos que precisamos de escala para melhorar o acesso à habitação. Neste contexto, a expansão para áreas limítrofes deixou de ser apenas uma oportunidade: é uma inevitabilidade estratégica.
É precisamente nestas zonas que começa a emergir um novo conceito de centralidade. Não se trata da criação deliberada de novos centros urbanos de raiz, mas sim da evolução sustentada de territórios adjacentes, que ganham densidade, diversidade e qualidade urbana. Municípios que têm vindo a afirmar-se como extensões naturais das áreas metropolitanas.
"A habitação deixou de ser apenas um espaço funcional para passar a integrar um conjunto mais alargado de expectativas: qualidade de vida, contacto com o exterior, eficiência energética e acesso a serviços. "
Esta transformação é impulsionada por vários fatores. Desde logo, a mudança nas prioridades dos compradores. A habitação deixou de ser apenas um espaço funcional para passar a integrar um conjunto mais alargado de expectativas: qualidade de vida, contacto com o exterior, eficiência energética e acesso a serviços. Empreendimentos mais recentes, em zonas menos centrais, conseguem muitas vezes oferecer estas condições, com áreas maiores e preços mais ajustados.
Por outro lado, a evolução dos modelos de trabalho, com maior flexibilidade e menor dependência da presença física diária, veio alargar significativamente o raio de decisão habitacional. A proximidade ao centro continua relevante, mas deixou de ser o único critério determinante.
No entanto, esta expansão traz consigo desafios críticos. O sucesso das novas centralidades depende da sua capacidade de oferecer mais do que habitação: exige infraestruturas, mobilidade eficiente e serviços de proximidade.
A mobilidade, em particular, assume um papel estruturante. Sem redes de transporte público eficazes o modelo torna-se insustentável. Investimentos em transporte são fundamentais para garantir coesão territorial e qualidade de vida.
"A criação de novas centralidades não pode ser sustentada exclusivamente pelo setor privado. Planeamento urbano, licenciamento ágil e investimento em infraestruturas são condições essenciais para garantir que este crescimento é equilibrado."
Paralelamente, é essencial assegurar a existência de equipamentos sociais, como escolas, unidades de saúde, espaços públicos, que contribuam para criar comunidades e não apenas zonas residenciais dispersas. O urbanismo contemporâneo exige uma abordagem integrada, onde habitação, trabalho, lazer e serviços coexistem.
Do lado dos promotores e investidores, esta nova geografia abre diferentes caminhos estratégicos. Desde grandes projetos de construção nova em zonas emergentes, a empreendimentos mais compactos, orientados para segmentos específicos, ou mesmo soluções inovadoras como o arrendamento institucionalizado. A adaptação à diversidade da procura será determinante.
Importa também sublinhar o papel do investimento público neste processo. A criação de novas centralidades não pode ser sustentada exclusivamente pelo setor privado. Planeamento urbano, licenciamento ágil e investimento em infraestruturas são condições essenciais para garantir que este crescimento é equilibrado e duradouro.
No fundo, o que está em curso não é apenas um deslocamento geográfico do mercado imobiliário. É uma mudança mais profunda na forma como concebemos a cidade. As áreas metropolitanas caminham para modelos mais policêntricos, onde diferentes núcleos coexistem e se complementam, oferecendo alternativas reais de vida.