Miguel Aguiar
Chief Expansion Officer Zome
Opinião
Chief Expansion Officer Zome
Opinião
Nos últimos anos, o mercado imobiliário português tem vivido uma pressão sem precedentes nos grandes centros urbanos, especialmente em Lisboa e no Porto. Os preços da habitação continuam a escalar e a acessibilidade tornou-se um desafio crescente para muitas famílias. Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que o índice de preços da habitação registou um aumento homólogo de cerca de 17,7% no terceiro trimestre do ano passado, atingindo níveis históricos. Esta realidade é impulsionada por uma forte procura e por uma oferta limitada nas cidades mais populosas, o que cria um cenário de competição intensa que deixa muitos compradores à margem.
Em contrapartida, surgiu uma mudança discreta, mas significativa. As zonas fora dos grandes aglomerados urbanos estão a ganhar um protagonismo cada vez maior. Cidades do interior e de média dimensão, como Beja, Santarém ou Portalegre, registaram subidas homólogas nos preços das casas superiores a 20% em 2025. Isto demonstra que o mapa do mercado imobiliário está a ser redesenhado.
"Esta mudança de paradigma coloca o interior do país como uma oportunidade para o setor imobiliário, abrindo portas a novas soluções, novos investidores e novos residentes."
Esta tendência é mais do que uma reação temporária à pandemia – é um reflexo da transformação do perfil do comprador moderno. Famílias, jovens trabalhadores e profissionais de todos os espectros de trabalho já não valorizam apenas a proximidade aos centros urbanos. Procuram espaço, qualidade de vida e, cada vez mais, flexibilidade através do trabalho híbrido. Esta mudança de paradigma coloca o interior do país como uma oportunidade para o setor imobiliário, abrindo portas a novas soluções, novos investidores e novos residentes.
Mas esta transição não acontece por acaso. As infraestruturas e a mobilidade também são fatores absolutamente determinantes. Estradas mais acessíveis, ligações ferroviárias eficientes e a possibilidade de trabalhar à distância tornam localidades fora de Lisboa e Porto mais atrativas, tanto para quem quer viver nelas como para quem quer investir. A conectividade digital e a oferta de serviços locais aproximam estas regiões dos grandes centros económicos, sem que seja necessário comprometer qualidade de vida ou oportunidades profissionais.
O setor imobiliário desempenha aqui um papel fundamental. Ao apoiar transações, dar visibilidade às oportunidades e reforçar a presença no interior, ajudamos a redistribuir a procura e a dinamizar economicamente regiões que, por vezes, seriam esquecidas. É crucial encarar estas áreas não como refúgios isolados, mas como partes integrantes de um mercado nacional mais equilibrado e sustentável.
"Ao apoiar transações, dar visibilidade às oportunidades e reforçar a presença no interior, ajudamos a redistribuir a procura e a dinamizar economicamente regiões que, por vezes, seriam esquecidas."
E os números reforçam esta visão. Dados confirmam que ainda existem muitas oportunidades de habitação acessível em diversos municípios do interior. Para compradores, significa mais opções e qualidade de vida, e para investidores, representa uma janela de oportunidade para diversificar e para crescer.
Acredito que descentralizar não é só “deslocar” a procura. É reconhecer que o interior deve ser parte integral da solução para um mercado imobiliário nacional mais coeso e resiliente. É repensar o desenvolvimento urbano e regional, adaptando políticas, infraestruturas e incentivos às novas necessidades dos compradores e das comunidades.
Portugal cresce quando o país e o território se desenvolvem em conjunto. E o interior pode ser a chave para esse crescimento. Ao olharmos para estas regiões como uma janela de oportunidade, estamos a abrir caminho para um futuro mais equilibrado e prático para todos.