
Paulo Lopes
CEO da Casa Iberia
Opinião

CEO da Casa Iberia
Opinião
Nas últimas semanas li estudos, relatórios e notícias que, à primeira vista, pareciam dizer coisas completamente diferentes sobre o mercado imobiliário português. Num dia fala-se de uma procura robusta e de previsões positivas para as transações. No dia seguinte surgem alertas sobre as dificuldades das famílias no acesso ao crédito, a falta de oferta ou a pressão crescente sobre o mercado de arrendamento.
Perante tantas mensagens aparentemente contraditórias, é natural que muitos se perguntem: afinal, o mercado está forte ou está fraco?
Na minha opinião, a resposta é simples. O mercado imobiliário português não está confuso. Nós é que continuamos a procurar respostas simples para uma realidade que se tornou muito mais complexa.
Durante muitos anos, o setor podia ser explicado através de poucos indicadores. As taxas de juro tinham um impacto imediato. O crédito era o principal motor da procura. Os compradores eram maioritariamente nacionais e as diferenças regionais tinham menos influência do que têm atualmente. Hoje, essa realidade mudou profundamente.
O imobiliário deixou de ser apenas um mercado habitacional. Tornou-se um reflexo da economia, da mobilidade internacional, da demografia, da fiscalidade, do investimento estrangeiro e até das transformações geopolíticas que afetam a Europa e o mundo. Isso significa que já não existe um único mercado imobiliário português. Existem vários mercados a funcionar em simultâneo.
A realidade de Lisboa não é a mesma de Braga. O Algarve responde a dinâmicas diferentes das do interior do país. O segmento premium comporta-se de forma distinta da habitação destinada à classe média. O mercado de arrendamento enfrenta desafios que não são os mesmos da compra para habitação própria. Quando olhamos para o setor desta forma, percebemos rapidamente que muitas das notícias que parecem contraditórias podem estar todas corretas ao mesmo tempo.
"O mercado imobiliário português não está confuso. Nós é que continuamos a procurar respostas simples para uma realidade que se tornou muito mais complexa."
Um estudo pode indicar que existe procura significativa por habitação. Outro pode demonstrar que muitas famílias continuam afastadas do mercado devido aos preços. Um terceiro pode revelar que os investidores permanecem ativos. Um quarto pode mostrar que a oferta continua insuficiente. Nenhum está necessariamente errado. Estão apenas a analisar partes diferentes da mesma realidade.
Talvez uma das maiores transformações dos últimos anos tenha sido precisamente a diversificação da procura. Hoje temos compradores nacionais e internacionais, investidores institucionais, profissionais qualificados que escolhem Portugal para viver, estudantes estrangeiros, nómadas digitais e empresas que procuram alojamento para colaboradores. Todos contribuem para a procura, mas todos têm necessidades diferentes.
Ao mesmo tempo, a oferta continua condicionada por problemas que o setor conhece bem. Os processos de licenciamento permanecem lentos, os custos de construção continuam elevados e a capacidade de resposta não acompanha a velocidade da procura em vários segmentos. Quando estas duas realidades se cruzam, surgem inevitavelmente tensões que se refletem nos preços, nas rendas e no acesso à habitação.
Outro aspeto que merece reflexão é a forma como consumimos informação sobre o mercado. Hoje existe mais informação do que nunca. Consultoras publicam estudos, bancos analisam o crédito, portais imobiliários produzem estatísticas e entidades públicas divulgam indicadores regularmente. Tudo isto é positivo e contribui para um mercado mais transparente.
"Considero que esta crescente complexidade é um sinal de maturidade. Os mercados mais desenvolvidos do mundo funcionam exatamente assim."
O problema surge quando tentamos transformar uma única estatística numa explicação absoluta para tudo o que acontece. Uma subida da procura não significa automaticamente mais vendas. Um aumento das pesquisas online não significa necessariamente mais transações. Uma redução do crédito não implica obrigatoriamente uma quebra da atividade. Os mercados modernos são influenciados por múltiplos fatores e raramente podem ser explicados através de relações lineares.
Na verdade, considero que esta crescente complexidade é um sinal de maturidade. Os mercados mais desenvolvidos do mundo funcionam exatamente assim. São influenciados por fatores económicos, financeiros, demográficos e internacionais que exigem análise e contexto.
O imobiliário português continua a enfrentar desafios importantes, sobretudo na habitação e no aumento da oferta. Mas também se tornou mais profissional, mais internacional e mais sofisticado. Talvez por isso a principal conclusão seja esta: o mercado já não pode ser resumido a uma manchete, a uma estatística ou a um único estudo.
Quando lemos notícias aparentemente contraditórias, talvez devamos resistir à tentação de procurar imediatamente quem está certo e quem está errado. Na maioria das vezes, todos estão a observar uma parte legítima da realidade.
Porque o imobiliário português não está confuso.
Está apenas mais complexo.
E compreender essa diferença será cada vez mais importante para interpretar o futuro do setor.