
João Morgado
Chief People Officer da Zome
Opinião

Chief People Officer da Zome
Opinião
Num momento em que o futuro do trabalho volta ao centro do debate público, impulsionado pelas alterações à legislação laboral, pela consolidação dos modelos híbridos e pela crescente procura de flexibilidade por parte dos profissionais, torna-se evidente que as carreiras estão a mudar. A ideia de um percurso linear, construído ao longo de décadas dentro da mesma organização, está a dar lugar a trajetórias mais dinâmicas, personalizadas e orientadas para objetivos.
Durante muito tempo, o sucesso profissional foi associado à estabilidade. Entrar numa empresa, crescer internamente e construir uma carreira previsível era o modelo aspiracional para grande parte dos trabalhadores. Hoje, embora essa realidade continue a fazer sentido para muitas pessoas e organizações, começa a coexistir com uma nova forma de encarar o trabalho.
As novas gerações valorizam cada vez mais a autonomia, a flexibilidade e a possibilidade de gerir o seu próprio percurso profissional. Procuram projetos que lhes permitam desenvolver competências, gerar impacto e conciliar melhor as diferentes dimensões da vida. Mais do que um cargo ou um vínculo permanente, procuram experiências profissionais alinhadas com os seus objetivos pessoais e profissionais.
Esta transformação não resulta apenas de uma mudança geracional. É também consequência de um mercado de trabalho cada vez mais dinâmico, tecnológico e global, onde a capacidade de adaptação se tornou uma das competências mais valorizadas. A pandemia acelerou tendências que já estavam em curso e demonstrou que a produtividade pode assumir diferentes formas, independentemente do local ou do modelo de trabalho adotado.
"O sentimento de pertença deixa de depender da presença física diária e passa a ser construído através de valores partilhados, confiança, colaboração e propósito comum."
Neste contexto, assistimos ao crescimento de modelos mais flexíveis e orientados para projetos. Profissionais que optam por construir percursos menos lineares, assumindo maior responsabilidade sobre a sua atividade, o seu desenvolvimento e os seus resultados. Não significa rejeitar o trabalho em equipa ou a integração numa organização, mas sim procurar uma relação diferente com o trabalho, assente numa maior autonomia e capacidade de decisão.
O setor imobiliário é um dos exemplos mais interessantes desta evolução. Tradicionalmente associado a uma forte componente relacional e empreendedora, tem vindo a atrair profissionais de origens muito diversas, muitos deles provenientes de áreas aparentemente distantes do mercado imobiliário.
O que os une é, frequentemente, a procura por um modelo profissional que lhes permita assumir um papel mais ativo na construção da sua carreira. A atividade de consultoria imobiliária oferece precisamente essa possibilidade: a gestão do próprio negócio, a definição de objetivos, a construção de uma marca pessoal e a liberdade para desenvolver uma atividade com elevado potencial de crescimento.
Esta realidade coloca também novos desafios às organizações. Em estruturas mais descentralizadas, a cultura organizacional torna-se ainda mais relevante. O sentimento de pertença deixa de depender da presença física diária e passa a ser construído através de valores partilhados, confiança, colaboração e propósito comum.
Para quem trabalha na gestão de pessoas, esta é uma das transformações mais interessantes dos últimos anos. Liderar já não significa apenas gerir equipas. Significa criar contextos onde diferentes perfis, expectativas e modelos de trabalho conseguem coexistir e prosperar. Significa apoiar profissionais que procuram autonomia sem abdicar de desenvolvimento, aprendizagem e ligação a uma comunidade.
Muitas organizações têm vindo a adaptar-se a esta nova realidade, procurando encontrar um equilíbrio entre liberdade individual e suporte organizacional. A flexibilidade deixou de ser apenas uma questão de modelo de trabalho e passou a fazer parte da proposta de valor para os profissionais.
"O futuro do trabalho já começou. E será, provavelmente, definido não apenas pelas organizações, mas também pela coragem dos profissionais em desenharem os seus próprios caminhos."
No nosso setor, este paradigma não é diferente. O consultor de hoje desenvolve a sua atividade com elevados níveis de autonomia, mas beneficia simultaneamente daquilo que a empresa lhe oferece: formação contínua, tecnologia, partilha de conhecimento e uma cultura centrada no seu bem-estar.
Em paralelo, modelos empresariais como o franchising imobiliário permitem que profissionais com espírito empreendedor criem e desenvolvam o seu próprio projeto empresarial, ancorado na experiência, nos recursos e na rede de apoio de uma marca consolidada. Esta combinação entre independência e suporte tende a ganhar relevância à medida que mais pessoas procuram construir percursos profissionais à sua medida.
Naturalmente, não existe um modelo único capaz de responder às expectativas de todos os profissionais. O emprego tradicional continuará a desempenhar um papel fundamental em muitos setores e contextos. Mas é inegável que o mercado de trabalho está a tornar-se mais diverso, mais flexível e mais aberto a diferentes formas de construir uma carreira.
Talvez a grande mudança não esteja nas leis, nem nas tecnologias. Talvez esteja na forma como as pessoas passaram a olhar para o trabalho. Menos como um lugar onde permanecem durante décadas e mais como um percurso que podem moldar de acordo com as suas ambições, competências e projetos de vida.
O futuro do trabalho já começou. E será, provavelmente, definido não apenas pelas organizações, mas também pela coragem dos profissionais em desenharem os seus próprios caminhos.