João Miguel Louro
Managing Broker da eXp Realty
Opinião
Managing Broker da eXp Realty
Opinião
Como a inteligência artificial deixou de nos exigir a interface – e por que razão continua a exigir-nos tudo o resto.
Escrevo aqui todos os meses sobre tecnologia e mediação imobiliária. Este artigo não nasceu de nenhuma tendência de mercado. Nasceu de uma tarde de trabalho perfeitamente banal, e foi por isso que me ficou atravessado.
Estava a preparar uma formação para agentes e precisava de a transformar numa apresentação. A ferramenta que se usa para isso tem as suas regras, a sua lógica, os seus atalhos. Toda a gente no setor a recomenda. E eu nunca me sentei a aprendê-la.
Pedi à inteligência artificial que escrevesse o prompt. A apresentação saiu, e saiu bem. Foi a meio desse processo que percebi uma coisa que me tirou o chão por um instante: provavelmente nunca vou aprender a trabalhar com aquilo. Não por preguiça, nem por falta de tempo. Porque deixou de ser necessário.
Durante anos, a pergunta de quem quer acompanhar este setor foi sempre a mesma. Que ferramentas tenho de aprender? Fizeram-se formações inteiras à volta dela, montaram-se planos de carreira, venderam-se cursos. Acredito que é, cada vez mais, a pergunta errada.
O que a inteligência artificial te está a tirar não é o critério. É a interface.
Repara no que continuou a ser meu naquela apresentação. O que entrava e o que ficava de fora. A ordem das ideias. O tom. A pessoa concreta em quem eu estava a pensar quando escolhi um exemplo em vez de outro. Nada disso estava na ferramenta. Nada disso estava no prompt até eu o dizer.
Para um segundo nesta frase: a pergunta deixou de ser “sabes usar?” e passou a ser “sabes o que queres?”.
E a segunda é bem mais desconfortável do que a primeira, porque não se resolve com um tutorial. Não há vídeo de dezoito minutos que te ensine a saber o que querias dizer. Aprender a usar uma ferramenta é um problema com fim à vista; saber o que se pretende dela não tem atalho nenhum, e nunca teve.
"A pergunta deixou de ser 'sabes usar?'. Passou a ser 'sabes o que queres?'. E a segunda não se resolve com um tutorial."
Mas há um risco que convém nomear, e é o oposto exato daquele que costuma aparecer nestas conversas.
Se não percebes absolutamente nada da ferramenta, também não sabes avaliar o que ela te devolveu. Eu não escrevi o prompt, mas fui eu que olhei para o resultado e disse o que servia e o que não servia. Fui eu que mandei tirar dois slides e reescrever um terceiro. Sem esse momento, não há delegação nenhuma a acontecer. Há aceitação. Quem não tem critério não delega: obedece ao output.
E aqui está a parte que me parece mais séria para a nossa profissão. O critério não se compra com a subscrição. Vem de teres feito aquele trabalho à mão antes, mal e devagar, tempo suficiente para reconheceres um resultado fraco quando ele te aparece à frente já bem formatado. Quem nunca escreveu um descritivo sofrível não distingue um descritivo sofrível de um bom. Quem nunca preparou uma apresentação de serviços que correu mal não sabe o que falta à que a máquina lhe entregou.
Isto tem uma consequência incómoda para quem está a entrar agora no setor. A tecnologia baixou a barreira da execução quase até ao chão e não baixou nada a barreira do julgamento. O agente com quinze anos de casa que adota estas ferramentas fica com uma vantagem que não é técnica – é de discernimento acumulado. O que entra hoje produz mais depressa do que alguma vez foi possível produzir, e tem menos maneiras de saber se aquilo que produziu presta.
"O critério não se compra com a subscrição. Vem de teres feito aquele trabalho à mão antes, mal e devagar."
Há, ainda assim, uma boa notícia, e é grande. Nesta profissão a esmagadora maioria de nós trabalha por conta própria, sem ninguém a quem passar aquilo que não sabemos fazer. E convém desfazer aqui um mal-entendido que se instalou: onde existe departamento de marketing, ele existe para comunicar a agência e para produzir os templates que chegam depois ao agente. Vale a pena olhar para o que são esses templates. Placas, cartões de visita, flyers, cartas estandardizadas, material onde o que podes alterar é o teu nome e os teus contactos. Isso não é personalização. É identificação. A estrutura dá-te o teu nome impresso em material que é dela. Tudo aquilo que efetivamente te distingue do agente da mesma marca que trabalha na rua ao lado sempre foi trabalho teu, mesmo quando o organigrama sugere o contrário.
E não estou a apontar isto aos modelos tradicionais como defeito, até porque a agência onde trabalho faz exatamente o mesmo. O marketing centralizado serve para garantir coerência de marca, e é para isso que deve servir. A diferença entre umas e outras nunca esteve nos templates. Está em o agente ter, ou não, com que produzir aquilo que template nenhum previa e, a partir de agora, em saber o que quer produzir.
Durante anos, o que separava um agente independente de apresentar trabalho ao nível das grandes estruturas era tempo de aprendizagem que ele não tinha. Deixou de ser. Passou a ser clareza de pensamento.
Sai muitíssimo mais barato. E expõe muito mais, porque já não dá para justificar o resultado com a falta de meios.
Foi por isso que deixei de medir a minha competência técnica pelo número de ferramentas que sei abrir. Passei a medi-la por outra coisa: pela clareza com que consigo descrever o que quero, em voz alta e com detalhe, antes de alguém, ou alguma coisa, mo entregar. É aí que se percebe, com uma nitidez quase constrangedora, quem pensou no trabalho e quem se limitou a encomendá-lo.
Fica o convite: da próxima vez que adiares uma ferramenta porque não tens tempo para a aprender, experimenta fazer-te a outra pergunta. Consegues descrever em detalhe o que querias que ela produzisse? Se não consegues, o adiamento não tinha nada a ver com o tempo.
Não era a ferramenta. Nunca foi.