João Miguel Louro

Managing Broker da eXp Realty

Opinião

Nunca confies numa só IA: a regra dos dois modelos para agentes imobiliários

22 Junho, 2026 · 09:45

A inteligência artificial já faz parte do teu dia a dia: escrever anúncios, redigir e-mails, resumir contratos, esclarecer uma dúvida fiscal em segundos. A produtividade é real. Mas há uma armadilha que poucos discutem — estes modelos enganam-se, e fazem-no com uma confiança desarmante.

 

O problema

O ChatGPT, o Claude ou o Gemini não “sabem” coisas como tu sabes. Geram texto prevendo a palavra mais provável a seguir. Quando falham, não dizem “não sei”: preenchem a lacuna com algo plausível, mas falso. É a chamada alucinação, e não é rara. Estudos recentes mostram que mesmo os melhores modelos inventam informação numa fatia significativa das respostas, com taxas que disparam em temas jurídicos e fiscais.

E não é teoria. Já houve advogados sancionados por apresentarem em tribunal jurisprudência inteiramente inventada pela IA — acórdãos que nunca existiram, escritos com formatação impecável. O problema é sempre o mesmo: a resposta parece correta. Não há hesitação nem aviso. Ao contrário de um erro humano, raramente “soa” a erro.

 

Porque é grave na mediação imobiliária

Aqui, uma resposta errada não é um inconveniente — é um risco legal, financeiro e reputacional. Pensa nas perguntas que fazes: cláusulas de um contrato de promessa, prazos, mais-valias, IMT, IMI, regras de licenciamento, preços por zona.

Em todas elas, respondes perante o cliente e perante a lei — não perante o fornecedor da IA. Se a ferramenta erra, és tu que assinas.

 

A solução: triangular respostas

Cada modelo foi treinado de forma diferente, por isso tende a errar em sítios diferentes. Daí nasce uma técnica simples e poderosa: faz a mesma pergunta a dois ou três modelos e compara.


  • Quando todos concordam: A confiança sobe muito (não é garantia, mas o risco cai drasticamente).

  • Quando discordam: Acendeu-se um alarme. Ali há algo para confirmar antes de avançares.


É o mesmo princípio de pedir uma segunda opinião a um colega antes de uma decisão importante.


"A tecnologia veio para ficar. Quem a usa com método ganha tempo sem perder rigor. Quem a usa às cegas, mais cedo ou mais tarde, assina por baixo de algo que a IA inventou."


💡 Como fazer, na prática:


  1. Tem dois ou três modelos abertos (ChatGPT, Claude, Gemini — as versões gratuitas chegam).

  2. Usa exatamente a mesma pergunta. Sê específico: indica que é em Portugal, menciona o ano, descreve o caso. Quanto mais contexto deres, menos o modelo “inventa”.

  3. Compara lado a lado e procura onde divergem: números, prazos, nomes de leis.

  4. Trata cada divergência como um ponto de verificação obrigatória.

  5. Confirma o que importa na fonte oficial — Diário da República, Portal das Finanças, IMPIC ou com um advogado/contabilista. Nunca um chatbot, por mais que dois concordem.


Dica extra: Pede a resposta a um modelo e cola-a noutro a perguntar: “Isto está correto? Aponta os erros”. Modelos diferentes são excelentes revisores uns dos outros.

 

O essencial

Cruzar respostas reduz o risco; não o elimina. Não substitui o teu conhecimento, nem dispensa as fontes oficiais. A IA funciona melhor como um assistente brilhante, mas distraído: rápido e cheio de ideias, mas que precisas de conferir.

A tecnologia veio para ficar. Quem a usa com método ganha tempo sem perder rigor. Quem a usa às cegas, mais cedo ou mais tarde, assina por baixo de algo que a IA inventou. A diferença pode ser apenas uma segunda janela aberta no teu ecrã.

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