João Oliveira
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
Quando se fala do mercado imobiliário em Portugal, a atenção recai quase sempre sobre os mesmos temas: preços, crédito, falta de oferta, construção e licenciamento. Mas há uma parte do problema que continua pouco discutida e que tem impacto real no mercado: as casas que existem, mas que continuam fora de circulação porque ficaram presas em heranças sem fim.
"Portugal não tem apenas um problema de falta de casas. Tem também um problema de casas sem destino."
Falamos de imóveis que não são vendidos, não são arrendados, não são reabilitados e, muitas vezes, nem sequer são ocupados. Casas que permanecem fechadas durante anos porque os herdeiros não chegam a acordo, porque o processo se arrasta ou porque ninguém consegue assumir uma decisão. O resultado é sempre o mesmo: património parado, valor congelado e um imóvel que deixa de cumprir qualquer função.
Nos últimos meses, o tema ganhou mais visibilidade com as alterações legislativas propostas para tentar desbloquear heranças indivisas e facilitar a venda de imóveis quando o impasse se prolonga. O próprio Governo reconhece que uma parte das casas devolutas em Portugal está ligada a este tipo de situações.
O problema é que, durante muito tempo, as heranças foram tratadas apenas como uma questão privada. Como um assunto entre herdeiros, advogados, notários e tribunais. Mas quando um imóvel fica anos preso numa herança sem resolução, deixa de ser apenas um tema familiar. Passa a ser também um tema imobiliário.
"Uma casa parada não é apenas uma casa fechada. É um ativo que se degrada, um património que perde valor, uma oportunidade que desaparece e, em muitos casos, uma casa a menos no mercado."
Porque uma casa parada não é apenas uma casa fechada. É um ativo que se degrada, um património que perde valor, uma oportunidade que desaparece e, em muitos casos, uma casa a menos no mercado.
Num país onde se discute tanto a necessidade de aumentar a oferta, talvez valha a pena olhar com mais seriedade para aquilo que já existe e continua bloqueado. Não apenas por falta de lei, mas muitas vezes por falta de decisão, de agilidade e de capacidade para resolver o património herdado com mais rapidez.
Talvez a pergunta mais importante já não seja apenas “quem herda?”, mas sim “o que acontece à casa depois da herança?”. Porque herdar um imóvel não devia significar deixá-lo anos suspenso. Devia significar decidir o seu futuro.
E esse futuro pode passar por vender, arrendar, reabilitar ou manter. O que não faz sentido é continuar a aceitar que, num mercado tão pressionado, haja casas que deixam de servir famílias, cidades e o próprio mercado simplesmente porque ficaram presas no tempo.
No fundo, há casas fechadas em Portugal que não estão vazias. Estão apenas à espera que alguém decida o que fazer com elas. E um mercado que precisa de mais agilidade não pode continuar a ignorar isso.