João Morgado

Chief People Officer da Zome

Opinião

Habitação e trabalho: a ligação invisível que está a moldar as escolhas das pessoas

16 Fevereiro, 2026 · 14:44

A dificuldade crescente em comprar ou arrendar casa está a redefinir prioridades, rotinas e decisões de vida. A habitação tornou-se um dos fatores mais subestimados na competitividade das empresas em Portugal. Para quem trabalha diariamente com pessoas, torna-se impossível ignorar o impacto que a habitação tem no bem-estar e na motivação. A casa, muitas vezes vista como um tema externo ao contexto profissional, passou a influenciar de forma direta a forma como as pessoas vivem, trabalham e projetam o futuro.

Quando falamos de motivação no trabalho, tendemos a pensar em salário, benefícios ou equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Olhamos para dentro das empresas. Raramente olhamos para fora – para a casa. E, no entanto, a forma como vivemos, onde vivemos e quanto investimos no teto sobre as nossas cabeças molda profundamente o quotidiano das pessoas que entram todos os dias em escritórios, plataformas digitais, obras ou reuniões online.


"Quando a oferta não acompanha a procura, não estamos apenas perante um desequilíbrio económico, mas sim a criar um bloqueio à mobilidade, ao talento e ao crescimento sustentável do país."


Trabalhar numa empresa imobiliária como a Zome dá-me uma perspetiva particular sobre esta realidade. Vejo a pressão que pesa sobre equipas, colegas e clientes não apenas pelos números do mercado imobiliário, mas pelas escolhas concretas que as pessoas fazem – muitas vezes mais racionais e planeadas do que no passado. Em muitos casos, trata-se de encontrar equilíbrio entre ambição pessoal, rendimentos disponíveis e contexto de mercado.

O aumento dos custos de habitação em Portugal exige uma maior ponderação nas decisões e reforça a importância do planeamento financeiro das famílias. Mas importa enquadrar este fenómeno numa dimensão mais ampla: quando a oferta de habitação não cresce ao ritmo da procura e os processos de desenvolvimento e licenciamento permanecem lentos e imprevisíveis, o mercado perde fluidez e eficiência. Quando a oferta não acompanha a procura, não estamos apenas perante um desequilíbrio económico, mas sim a criar um bloqueio à mobilidade, ao talento e ao crescimento sustentável do país.

A consequência prática sente-se nas escolhas de vida e de carreira. Algumas pessoas optam por viver mais longe dos centros urbanos. Outras reorganizam prioridades profissionais ou ajustam expectativas. É importante reforçar que a casa já não se trata apenas de um teto – trata-se de estabilidade, de previsibilidade e de qualidade de vida.

No mercado residencial, esta dinâmica traduz-se numa maior racionalidade nas decisões e numa procura crescente por equilíbrio entre localização, preço e potencial de valorização. Ao mesmo tempo, torna-se evidente que o verdadeiro desafio estrutural está na capacidade de gerar mais oferta, com maior agilidade administrativa e execução eficiente. Sem escala e previsibilidade, o mercado permanece sob pressão.


"O impacto invisível da habitação na motivação e no desempenho existe e precisa de estar na conversa dos gestores."


Esta pressão não fica fora do trabalho. É natural que preocupações com decisões estruturais de vida influenciem níveis de criatividade, foco, energia e tranquilidade dos profissionais. O impacto invisível da habitação na motivação e no desempenho existe e precisa de estar na conversa dos gestores. Motivação, criatividade e foco não nascem apenas de boas políticas de Recursos Humanos; nascem também de contextos de vida que permitem estabilidade, planeamento e previsibilidade.

Falar disto é sensibilidade social, mas também é sensibilidade estratégica. Empresas mais atentas a este contexto conseguem entender melhor as necessidades das suas equipas, adaptar práticas de apoio, flexibilizar rotinas e, acima de tudo, reconhecer que a pessoa que está do outro lado da videoconferência não é um conjunto de competências num organograma, mas alguém com uma vida complexa que inclui, entre muitas dimensões, a casa onde vive.

No fim, fundamentalmente, trata-se de humanidade. E quando colocamos a humanidade no centro da conversa, tudo o resto – inclusive o trabalho – ganha mais significado.

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