João Oliveira
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
Fala-se todos os dias da crise na habitação. Dos preços que não param de subir. Do crédito à habitação que está mais difícil. Dos jovens que não conseguem sair de casa dos pais. Dos casais que adiam a ideia de constituir família porque não encontram um sítio onde viver. Tudo isto é verdade. Mas há uma parte da realidade que raramente entra na conversa, e que devia estar no centro do debate.
Neste momento, há 15 municípios em Portugal onde o preço das casas está a descer. Num país onde quase tudo encareceu, onde cada metro quadrado parece valer ouro, estes lugares são a exceção. São concelhos onde ainda é possível comprar casa por valores que não exigem décadas de endividamento. Onde o custo por metro quadrado caiu, mesmo com a pressão geral do mercado.
Perante este cenário, a pergunta impõe-se: se estas casas existem, se estão acessíveis, por que razão não há uma corrida a aproveitá-las?
A resposta não está no valor das casas. Está no valor do que as rodeia.
"Estas casas baratas existem, mas estão em locais onde é difícil imaginar uma vida completa. Onde o quotidiano exige constantes deslocações, sacrifícios logísticos e ausência de rede de apoio. Comprar uma casa ali pode ser fácil, mas viver nela não."
Na maioria destes concelhos, não há comboio. Não há autocarro frequente. Não há emprego em quantidade suficiente. Não há centros de saúde com resposta eficaz. Há escolas, sim, mas muitas vezes longe.
Estas casas baratas existem, mas estão em locais onde é difícil imaginar uma vida completa. Onde o quotidiano exige constantes deslocações, sacrifícios logísticos e ausência de rede de apoio. Comprar uma casa ali pode ser fácil, mas viver nela não.
E é aqui que o tema da habitação se cruza com algo maior: a forma como tratamos o território.
Portugal é um país profundamente desigual. A falta de investimento em mobilidade, saúde, cultura, educação e economia nas zonas de menor densidade populacional criou um círculo vicioso: menos serviços, menos gente. Menos gente, menos serviços.
O mercado imobiliário reflete isso com brutal clareza. Os preços caem onde ninguém quer, ou consegue, viver. E sobem, sem parar, onde todos estão obrigados a concentrar-se.
"A crise da habitação não se resolve apenas com mais construção. Resolve-se com mais equilíbrio e com mais capacidade de imaginar Portugal como um país inteiro, e não como meia dúzia de cidades rodeadas de esquecimento."
Mas este cenário não é inevitável. Aqueles 15 municípios onde os preços baixaram não têm de ser vistos como território perdido. Podem, com visão e vontade política, tornar-se espaços de futuro. Mas para isso, é preciso garantir que viver fora dos grandes centros não significa viver com menos.
Não basta dizer que o interior tem potencial. É preciso ativá-lo com medidas claras, com políticas públicas sérias e com um plano de ocupação do território que não deixe metade do país para trás.
A crise da habitação não se resolve apenas com mais construção. Resolve-se com mais equilíbrio e com mais capacidade de imaginar Portugal como um país inteiro, e não como meia dúzia de cidades rodeadas de esquecimento.
Se há casas onde os preços estão a cair, temos duas opções. Ou ignoramos, e deixamos o problema crescer nas cidades onde todos se atropelam por uma renda. Ou olhamos com atenção, e vemos ali uma oportunidade de fazer diferente.
Todos queremos ter uma casa. Mas o que queremos mesmo é poder viver nela. Com tudo o que isso implica.