Luís Mário Nunes
CEO da ComprarCasa Portugal e Espanha
Opinião
CEO da ComprarCasa Portugal e Espanha
Opinião
Nos últimos anos habituámo-nos a analisar o mercado imobiliário através de indicadores aparentemente simples: preços, transações, crédito ou oferta disponível. Contudo, a realidade que hoje observamos em Portugal e Espanha exige uma leitura mais profunda.
O primeiro semestre de 2026 veio confirmar aquilo que muitos profissionais do setor já sentiam no terreno: o mercado imobiliário ibérico não está em retração. Está, sim, a entrar numa nova fase de maturidade.
À primeira vista, Portugal e Espanha apresentam comportamentos semelhantes. Em ambos os países os preços continuam a crescer, a procura mantém-se resiliente e a habitação permanece no centro das preocupações das famílias. Mas por trás desta aparente semelhança existem nuances importantes que merecem atenção.
Em Portugal, a principal questão continua a ser a insuficiência da oferta. Durante anos, a produção de nova habitação ficou aquém das necessidades do país e esse desequilíbrio foi agravado pelo crescimento do número de famílias, pela mobilidade internacional e pela concentração populacional nos principais centros urbanos. O resultado está à vista: os preços continuam a subir, o acesso à habitação torna-se mais difícil e a pressão social aumenta.
Espanha enfrenta um desafio semelhante, embora mais heterogéneo. O mercado continua muito ativo, mas as diferenças entre comunidades autónomas tornam-se cada vez mais evidentes. Madrid, Valência, Málaga, Alicante ou Palma vivem realidades bastante distintas das observadas em muitos territórios do interior. Falar hoje do mercado imobiliário espanhol como um todo é simplificar excessivamente uma realidade cada vez mais regionalizada.
"O verdadeiro valor já não está apenas no acesso aos imóveis. Está na capacidade de interpretar o mercado, de ajudar os clientes a filtrar informação, de antecipar riscos e de construir soluções ajustadas às necessidades de cada família."
Ao mesmo tempo, assistimos a uma transformação importante no comportamento dos consumidores.
Os compradores atuais são mais informados, mais prudentes e mais exigentes. Procuram compreender os custos totais da habitação, analisam a eficiência energética, comparam opções de financiamento e dedicam mais tempo ao processo de decisão. A compra de uma casa continua a ser uma decisão emocional, mas é cada vez mais uma decisão racional.
Esta mudança representa uma enorme oportunidade para os profissionais do setor.
Num mercado onde a informação está disponível para todos, o verdadeiro valor já não está apenas no acesso aos imóveis. Está na capacidade de interpretar o mercado, de ajudar os clientes a filtrar informação, de antecipar riscos e de construir soluções ajustadas às necessidades de cada família.
É precisamente neste contexto que o papel das redes imobiliárias assume uma relevância renovada.
Acreditamos que o futuro da mediação imobiliária não passa por vender mais imóveis. Passa por prestar um melhor serviço. Passa por criar confiança. Passa por acompanhar famílias num dos momentos mais importantes das suas vidas.
Esta realidade é visível tanto em Portugal como em Espanha. A tecnologia continuará a transformar processos, a inteligência artificial aumentará a produtividade e a digitalização simplificará muitas tarefas. No entanto, a confiança continuará a depender das pessoas.
Por isso, quando analisamos o futuro da Península Ibérica, acreditamos que existem três grandes desafios estratégicos que irão marcar os próximos anos.
O primeiro é aumentar a oferta de habitação. Sem uma resposta efetiva na construção nova, na reabilitação urbana e na simplificação dos processos urbanísticos, será difícil reduzir a pressão sobre os preços e melhorar o acesso à habitação.
O segundo é melhorar a acessibilidade económica. Não basta existirem casas disponíveis; é necessário garantir que as famílias conseguem efetivamente aceder a essas habitações de forma sustentável e compatível com os seus rendimentos.
O terceiro é reforçar a qualificação do setor. Num mercado cada vez mais complexo, o profissional imobiliário terá de ser consultor, analista, negociador e gestor de expectativas.
"A diferenciação deixará de resultar apenas da dimensão das empresas e passará a depender da qualidade do serviço, da especialização dos profissionais e da capacidade de colocar as famílias no centro de todas as decisões."
Apesar dos desafios, existem razões para encarar o futuro com confiança.
Portugal e Espanha continuam a beneficiar de economias dinâmicas, de uma forte atratividade internacional e de uma procura habitacional estruturalmente sólida. A habitação continuará a ser uma necessidade fundamental e o mercado continuará a oferecer oportunidades para quem souber adaptar-se às novas exigências dos consumidores.
Este momento não deve ser encarado como uma fase de incerteza, mas como um período de transformação. Um período em que a diferenciação deixará de resultar apenas da dimensão das empresas e passará a depender da qualidade do serviço, da especialização dos profissionais e da capacidade de colocar as famílias no centro de todas as decisões.
Porque, no final, os números ajudam-nos a compreender o mercado.
Mas são as famílias que lhe dão verdadeiro significado.