Pedro Maldonado
Head of Developments at C21 Realty Art
Opinião
Head of Developments at C21 Realty Art
Opinião
O elefante na sala é óbvio para todos: a classe média está a ficar fora do mercado.
Quando a classe média é excluída do mercado, a habitação deixa de ser um desafio setorial e torna-se um desequilíbrio sistémico.
Sim, é verdade, o mercado imobiliário continua ativo, transaciona, valoriza, atrai investimento. Mas existe uma diferença crescente entre aquilo que está disponível e aquilo que as famílias conseguem efetivamente pagar.
Durante anos convivemos com crédito barato e criámos a sensação de que o acesso estava democratizado. Não estava. Estava temporariamente facilitado. Na conjuntura atual, o desfasamento entre rendimentos e preços tornou-se evidente, e as consequências vão muito além do setor imobiliário.
A habitação é um elevador social. Quando este acesso é bloqueado, a desigualdade instala-se.
Se uma geração começa a duvidar que o trabalho e o esforço são suficientes para aceder a uma casa, que contrato social podemos apresentar?
"A habitação é um elevador social. Quando este acesso é bloqueado, a desigualdade instala-se. Se uma geração começa a duvidar que o trabalho e o esforço são suficientes para aceder a uma casa, que contrato social podemos apresentar?"
O futuro exige previsibilidade. Ninguém constrói o futuro em quartos arrendados com contratos de um ano. A segurança habitacional sempre foi o primeiro degrau da autonomia. E não é por romantismo, é por estabilidade financeira e psicológica. Será que quando este degrau desaparece, a escada continua a fazer sentido?
Não me choca dizer que quando a classe média deixa de ser o motor económico, passa a ser uma espécie de hóspede temporário do mercado. Uma geração que vive como inquilina permanente no seu próprio país.
Estamos a falar de questões fraturantes, de adiamento da parentalidade, de agravamento da mobilização cívica, da emigração qualificada…da desistência de sonhar grande!
O tempo, e “estes tempos”, não estão a jogar a nosso favor.
Mas olhando com esperança, vemos também que o setor imobiliário é em si mesmo uma infraestrutura social com capacidade. Promotores, mediadores, banca, investidores, estado, municípios, fundos, arquitetos, construtores, proprietários privados… todos somos parte do mesmo tabuleiro.
Temos este desafio de vender a quem quer ficar!
Vamos ser céleres e menos burocráticos. Vamos abrir um novo ciclo, permitindo que se invista, consuma, tenha filhos, crie empresas.
No fundo, reativar o motor invisível da coesão social.
Quero acreditar neste horizonte. Acredito que conseguimos decidir, hoje. E acredito que temos capacidade para que o imobiliário seja lembrado não como o setor que bloqueou o futuro, mas como o setor que o destravou.
A vontade e a coragem abrem sempre portas ao possível. Como disse Luís de Camões nos Lusíadas, “impossibilidades não façais… Que quem quis sempre pôde”.