João Oliveira
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
CEO da Realty One Group Portugal
Opinião
Nos últimos anos, ouvimos falar cada vez mais de projetos de uso misto. A promessa parece simples e sedutora: viver, trabalhar, consumir e desfrutar no mesmo espaço. É o sonho da cidade compacta, eficiente e sustentável, onde o carro deixa de ser uma necessidade diária e a qualidade de vida se mede em minutos poupados. Em teoria, estes projetos aproximam-nos da ideia da “cidade dos 15 minutos”, tão falada em capitais como Paris ou Barcelona, onde tudo o que precisamos está a uma curta distância.
No papel, esta visão soa a revolução. Mas a questão que não podemos ignorar é: estamos, de facto, a construir cidades mais inclusivas ou apenas novas ilhas de luxo disfarçadas de inovação urbana?
É verdade que os projetos de uso misto têm méritos claros. Ao reduzirem a dependência do carro, ajudam a combater o trânsito e a poluição. Ao concentrarem habitação, serviços e lazer no mesmo espaço, facilitam um estilo de vida mais equilibrado e dão nova vida a zonas urbanas antes degradadas. Para muitas cidades, parecem ser a resposta natural aos desafios da mobilidade, do excesso de tempo perdido em deslocações e até da necessidade de travar a expansão urbana descontrolada.
"Estamos, de facto, a construir cidades mais inclusivas ou apenas novas ilhas de luxo disfarçadas de inovação urbana?"
Contudo, em Portugal, o retrato mostra contradições evidentes. Muitos destes empreendimentos são pensados sobretudo para um público restrito. Falamos de condomínios com preços que a maioria da população não consegue suportar, acompanhados por lojas premium e serviços voltados para uma classe média-alta globalizada.
O discurso é o da integração, mas o resultado acaba por ser o da segregação. Em vez de unirem diferentes realidades sociais, estes projetos criam espaços exclusivos, acessíveis a poucos e desligados da vida dos bairros que os rodeiam.
E aqui reside o grande paradoxo. Falamos de cidades “sustentáveis” enquanto replicamos o mesmo modelo de exclusão que sempre conhecemos. Fala-se muito em arquitetura inovadora, mas pouco na preservação do comércio local e da vida de bairro. Fala-se em futuro, mas raramente na resposta concreta à crise de habitação que sufoca famílias e jovens. Fala-se em sustentabilidade ambiental, mas quase nunca em sustentabilidade social, que deveria estar no centro de qualquer planeamento urbano responsável.
A comparação internacional ajuda a perceber o que falta por cá. Em cidades como Viena ou Copenhaga, projetos de uso misto são acompanhados por políticas públicas robustas: quotas de habitação acessível, regulação do mercado e incentivos que promovem diversidade social.
O resultado são bairros que respiram pluralidade, onde diferentes classes convivem no mesmo espaço, evitando guetos dourados de um lado e zonas esquecidas do outro.
"Uma cidade integrada não pode ser apenas a soma de apartamentos de luxo, escritórios modernos e restaurantes 'gourmet'. Precisa de espaço para quem a vive diariamente".
Aqui, a pergunta decisiva é simples: para quem estamos realmente a construir estas cidades? Se a resposta for “para investidores internacionais e públicos de alto rendimento”, então estamos apenas a falar de negócio. Se a resposta for “para todos, com políticas que garantam diversidade e acessibilidade”, então podemos estar perante um caminho de futuro.
Uma cidade integrada não pode ser apenas a soma de apartamentos de luxo, escritórios modernos e restaurantes gourmet. Precisa de espaço para quem a vive diariamente: trabalhadores, estudantes, famílias que não medem qualidade de vida pelo número de rooftops ou lojas de marca no rés-do-chão. Precisa de preservar a identidade dos bairros, de garantir espaço para o comércio tradicional e de criar soluções reais para quem procura uma casa, não apenas um investimento.
Os projetos de uso misto têm potencial para transformar o modo como vivemos as cidades. Mas só serão uma solução verdadeira se forem pensados com responsabilidade social, regulados para garantir habitação acessível e desenhados para incluir diferentes realidades. Caso contrário, não passam de miragens urbanas: bonitas nas imagens promocionais, mas incapazes de responder às necessidades reais de quem procura o essencial: uma cidade justa, diversa e verdadeiramente habitável.