Ricardo Guimarães
Diretor da Confidencial Imobiliário
Opinião
Diretor da Confidencial Imobiliário
Opinião
O Governo errou ao referir-se aos preços de 648 mil euros e às rendas de 2.300 euros como “moderadas”, colando às medidas anunciadas um ónus de insensibilidade social que criou um ruído político e mediático que prejudicou enormemente a percepção pública sobre a bondade das mesmas.
O XXIV Governo Constitucional caiu na sequência um dominó de episódios que tiveram como ponto de partida a nova “lei dos solos”, em cuja proposta legislativa se lançou um novo conceito, o conceito de “preços moderados”, que definia tectos para os preços finais de venda dos fogos que viessem para o mercado na sequência da conversão de solos rústicos em urbanos. Esses tectos dependiam dos preços medianos praticados em cada concelho, até um máximo geral.
Nessa altura, sinceramente, foi lamentável observar o nível do debate público e “especializado” sobre os impactos da nova “lei dos solos”, designadamente pelos seus potenciais efeitos no espaço rural, mercê do ímpeto especulativo de que a lei enfermaria. Foi lamentável porque gerou-se um alarme na sociedade em torno de um risco que materialmente não existia.
"Ao optar por tectos menos limitativos, mas que ainda assim excluem a gama alta, as medidas não pecam por deixar de fora os mercados onde a crise se sente mais".
Quem fizesse as contas, coisa que na Ci fizemos, via que os “preços moderados” eram de facto tão moderados que em quase lado nenhum eram altos o suficiente para viabilizar o investimento. Basicamente porque (i) assentavam em medianas locais apuradas tendo por base essencialmente a venda de fogos usados e (ii) dado nesse valor estarem incluídos todos os custos de promoção, desde o terreno, os projetos, as infraestruturas, a construção, o IVA (a 23%), o custo de capital e a margem do investidor. Em contas simples, tudo pelos mínimos, o preço de venda por m2 de ABP nunca poderia ser inferior a 3 mil euros/m2, um valor que retirava do perímetro da “lei dos solos” quase todo o país, com excepção dos concelhos mais caros (alguns na região de Lisboa, Porto, Matosinhos e diversos no Algarve). Nem um concelho do Alentejo, do Centro ou do Norte eram elegíveis, a menos que fossem operações em solos públicos e em HCC. Era só fazer as contas.
No entanto, fomos todos bombardeados com um “consenso” científico e mediático de que se tinha aberto a porta à especulação e que todos e quaisquer intervenientes que tivessem interesses imobiliários teriam de ser expurgados da vida pública. A realidade dos factos não era relevante, de tal forma era apetitoso o filão político-“científico”-mediático, mostrando que importa mais a retórica do que a substância.
"Já todos percebemos que onde o Governo queria dizer “valores limite” disse “valores moderados”. Abriu o flanco e criou a dúvida."
Ora, se foi assim à época, não o foi diferente hoje.
Se me parece legítima a dúvida inicial, provocada pelo próprio Governo, fruto da opção de comunicação que fez, parece-me menos legítimo que, num segundo momento, o mesmo ruído político-“científico”-mediático mostre uma consistente preferência pela promoção de um clima de alarme, neste caso concreto amplificando o ruído inicial, inadvertidamente provocado pela comunicação do Governo.
Quem já tenha tido oportunidade de amadurecer o sentido das medidas anunciadas, facilmente percebe que a redução de IVA e IRS visa o mercado como um todo, incluindo a oferta para a classe média, mas exclui o que se pode chamar de luxo, um segmento que o Governo situou como estando acima dos tais valores de 648 mil e 2,3 mil euros, para venda ou arrendamento. Ora se, conforme os dados do SIR, os tectos excluem 10% das vendas de apartamentos T2 novos, essa percentagem sobe para 100% no caso da freguesia de Estoril-Cascais, local cujo perfil de oferta manifestamente não se orienta para a classe média.
Naturalmente, se os máximos fossem inferiores, por exemplo 300 mil euros para venda ou 700 para arrendamento, tudo parceria mais “justo”. No entanto, sucederia o mesmo que com as “rendas acessíveis”, ou seja, nada… Ao optar por tectos menos limitativos, mas que ainda assim excluem a gama alta, as medidas não pecam por deixar de fora os mercados onde a crise se sente mais, sendo potencialmente geradoras de benefícios para as famílias.
Já todos percebemos que onde o Governo queria dizer “valores limite” disse “valores moderados”. Abriu o flanco e criou a dúvida.
Cabe à ética, aplicada na política, na ciência e nos media, fazer serviço público e contribuir para o esclarecimento e não para a promoção do populismo.