Luís Mário Nunes
CEO da ComprarCasa Portugal
Opinião
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Ainda estamos no mês de janeiro.
Ainda mantemos algum daquele otimismo disciplinado que andámos a construir durante a época festiva do final de ano.
Podemos respirar a energia do novo começo: aquela mistura de culpa e entusiasmo que surge todos os janeiros, quando prometemos a nós próprios que desta vez será diferente. Que vamos dormir mais, discutir menos, fazer mais exercício e deslizar menos. Que vamos ao ginásio, meditamos cinco minutos por dia, comemos melhor. Que vamos ler mais livros e menos emails.
Prometer é muito parecido com fazer, e fazer, faz-nos sentir melhor do que pensar. É por isso que repetimos o ritual todos os anos: porque dizer “Vou mudar” alivia o desconforto de admitir que provavelmente não vamos.
E o curioso é que cada um de nós sabe perfeitamente onde vai falhar. E, no entanto, reescrevemos a lista na esperança de que, desta vez, o calendário faça o trabalho que evitámos.
A ilusão do reinício
Cada janeiro parece oferecer-nos uma página em branco. O calendário é reiniciado, as agendas estão cheias de intenções e as mensagens motivacionais circulam como se fossem receitas infalíveis. Mas não começamos realmente do zero: começamos do mesmo sítio, só que mais descansados e com um ligeiro sentimento de culpa pelos doces e pelas contas.
O novo ano traz algo de placebo emocional. Faz-nos acreditar que a mudança depende do calendário, quando na realidade depende de nós. Mudar de número não muda nada, mas durante algumas semanas convence-nos de que muda. É como se a esperança fosse recarregada automaticamente todos os dias 1 de janeiro, mesmo sabendo que a bateria começa a esgotar-se antes da segunda segunda-feira.
As empresas também participam nesta ilusão coletiva. Janeiro é época alta para discursos inspiradores e promessas de transformação. Novos projetos são anunciados, as prioridades são redefinidas, os planos estratégicos são apresentados com a solenidade de um ritual. Durante alguns dias, o entusiasmo corporativo substitui a memória. Tudo parece possível, até que a primeira urgência reaparece e voltamos ao modo de sobrevivência.
Gostamos de acreditar que a mudança começa com força de vontade, mas a verdade é que a vontade é um músculo fraco. Fatiga-se rapidamente. E se o ambiente não for bom, ele atrofia antes do final do mês. A psicologia chama-lhe “viés do novo começo”: a tendência para sobrevalorizar o que podemos mudar só porque algo – uma data, uma segunda-feira, um novo calendário – dá-nos a sensação de recomeçar.
Mas o problema não é prometer, mas confundir propósito com prática. Fazer uma lista de resoluções é fácil, manter a disciplina todos os dias, muito menos.
Mas, entretanto, a ilusão do início dá-nos algo de que precisamos: uma trégua emocional. Permite-nos acreditar, mesmo que apenas por alguns dias, que ainda temos espaço para ser diferentes. Para ser melhores. E essa crença, embora nem sempre verdadeira, tem a sua função: lembrar-nos de que ainda queremos melhorar.
"O novo ano traz algo de placebo emocional. Faz-nos acreditar que a mudança depende do calendário, quando na realidade depende de nós."
As 5 resoluções mais comuns… e os que evaporam mais depressa
Todos os anos de janeiro promete a mesma coisa: que desta vez o faz. Que vamos cuidar melhor de nós próprios, viver melhor, estar mais presentes e trabalhar com mais significado. Mas, após alguns dias, a rotina recupera o seu trono e velhos hábitos, pacientes e silenciosos, retomam o seu lugar. Estas cinco resoluções são repetidas em todos os países, empresas e grupos de WhatsApp. E todos os anos morrem da mesma forma: por excesso de intenção e falta de prática.
Todos estes propósitos têm algo em comum: falam de desejo, mas entram em conflito com a inércia. Queremos mudar, mas sem alterar demasiado o que já sabemos. Queremos bem-estar, mas com a mesma pressa de sempre. Queremos propósito, mas sem desistir do piloto automático.
E assim, todos os anos, transformamos o propósito em liturgia e o hábito em resistência. É por isso que não mudamos. Ou fazemos muito pouco.
"Mudar não é fazer algo novo, é deixar de fazer o que sempre fazes. É superar o automatismo que nos leva a repetir o que sabemos apenas porque é confortável ou previsível."
Conclusão
Talvez o problema não seja falhar nas resoluções, mas continuar a acreditar que basta escrevê-las para mudar algo. Janeiro dá-nos a ilusão de controlo, mas não de disciplina. Faz-nos sentir que podemos reinventar-nos, mesmo que, no fundo, continuemos iguais, só que com um novo calendário e mais arrependimentos.
Prometer é fácil. Para cumprir é necessário demitir-se. E aí reside o ponto cego: queremos adicionar hábitos sem largar aqueles que nos sabotam. Queremos ser mais saudáveis sem dormir mais, mais equilibrados sem dizer não, mais felizes sem mudar de ritmo. Queremos propósito sem renúncia, evolução sem esforço e serenidade sem silêncio.
No fundo, o que é mais difícil para nós não é começar, mas permanecer lá. Porque mudar não é fazer algo novo, é deixar de fazer o que sempre fazes. É superar o automatismo que nos leva a repetir o que sabemos apenas porque é confortável ou previsível.
A motivação permite-te começar, mas só a disciplina te leva à linha de chegada.
O mesmo acontece nas empresas. Falamos sobre bem-estar enquanto glorificamos a disponibilidade total. A inovação é pregada, mas o erro é penalizado. O propósito é invocado, mas o resultado é medido. E assim, a cultura do “este ano sim” é perpetuada com mais uma promessa por cumprir. Porque o que falta não é uma narrativa motivadora, mas sim uma disciplina transformadora.
Talvez não precisemos de mais resoluções, mas sim de mais consciência. Talvez a verdadeira mudança consista em rever as nossas rotinas, as nossas pequenas decisões, aquelas que parecem irrelevantes, mas acabam por definir a nossa forma de viver e liderar.
Se procuras coisas diferentes, terás de encontrar, também, ações diferentes a desenvolver! Não encontrarás resultados diferentes mantendo tudo como está!