João Oliveira

CEO da Realty One Group Portugal

Opinião

As casas de luxo crescem. E o direito à habitação, encolhe?

7 Julho, 2025 · 16:33

O mercado imobiliário português parece viver numa realidade paralela. Atualmente, multiplicam-se as notícias sobre casas de luxo lançadas em zonas prestigiadas, algumas a preços que ultrapassam um milhão de euros.

Embora dados recentes indiquem que 73% da procura por este tipo de imóveis vem de portugueses, é importante não criar ilusões. Isto não significa que a maioria dos portugueses tenha acesso a este mercado; estamos a falar apenas de uma minoria com grande poder de compra, num universo muito restrito. Ao mesmo tempo, cerca de 27% da procura é liderada por estrangeiros, sobretudo britânicos, norte-americanos e franceses, que continuam a ver Portugal como um destino atrativo para investir ou viver.

Este fenómeno alimenta o orgulho nacional de sermos um “destino de eleição”, mas levanta uma questão fundamental: enquanto se multiplicam mansões, como se explica que tantas pessoas tenham cada vez mais dificuldade em aceder a uma habitação digna?


"A questão não é 'demonizar' o luxo, mas exigir equilíbrio. Um mercado saudável não é aquele que só brilha nas páginas das revistas de arquitetura; é o que serve toda a população, com as suas diferentes necessidades."


O contraste não podia ser mais evidente. Num extremo, um segmento de luxo cada vez mais dinâmico, que atrai investimento externo, gera receitas para o Estado e impulsiona serviços de topo. No outro, famílias portuguesas empurradas para a periferia, a enfrentar listas de espera para habitação social e a ver o mercado de arrendamento tornar-se insustentável.

A resposta não é simples. O imobiliário de luxo tem, de facto, um papel relevante na economia: dinamiza a construção, atrai capital, valoriza determinadas zonas e pode, indiretamente, criar emprego. No entanto, quando o foco do setor, e das políticas públicas, se centra quase exclusivamente neste segmento, ignorando a necessidade de habitação acessível, abre-se uma ferida social difícil de sarar.

Além disso, o apelo ao investidor internacional traz consequências. O preço médio das casas aumenta, a pressão sobre o arrendamento intensifica-se e o tecido urbano transforma-se, muitas vezes em prejuízo dos próprios residentes, que perdem a ligação ao seu bairro e à sua cidade.


"Sem resolver a falta de habitação digna, estaremos sempre a alimentar dois países dentro do mesmo território: um que vive acima das nuvens, e outro que apenas sonha com um lar."


A questão, portanto, não é “demonizar” o luxo, mas exigir equilíbrio. Um mercado saudável não é aquele que só brilha nas páginas das revistas de arquitetura; é o que serve toda a população, com as suas diferentes necessidades. O desafio é garantir que o boom do imobiliário de luxo não aconteça à custa de quem apenas deseja um teto digno para viver.

O futuro do setor passa por políticas que promovam habitação para todos: incentivos fiscais para a renovação urbana, maior aposta na construção a custos controlados, quotas para habitação acessível e um verdadeiro combate à especulação. Caminhos possíveis e urgentes.

Enquanto Portugal continuar a ser notícia pelo brilho das suas casas de luxo, sem resolver a falta de habitação digna, estaremos sempre a alimentar dois países dentro do mesmo território: um que vive acima das nuvens, e outro que apenas sonha com um lar.

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