Ricardo Guimarães

Diretor da Confidencial Imobiliário

Opinião

A vítima de sermos 11,4 milhões são os fogos vagos

3 Julho, 2026 · 15:35

Termos uma população de 11,4 milhões foi, ao mesmo tempo, a melhor e a pior notícia que a economia nacional poderia ter recebido. Todos compreendemos o potencial de vantagens que resultam de um ganho de escala. Mas todos compreendemos igualmente bem os problemas advindos de um choque de procura tão substancial e, acima de tudo, tão repentino.

As anteriores previsões para a população residente situavam-se em 10,7 milhões. Numa ótica estritamente demográfica, esse já era um número muito positivo para o nosso país, dada a sua tendência estrutural para o envelhecimento e consequente degradação do saldo natural. Em face de uma pirâmide demográfica de base cada vez menor e de uma tendência estabelecida desde a crise financeira para a emigração jovem, sem a novidade da imigração, a nossa economia estaria ainda no inverno da Troika, tolhida, periférica, anémica.

Estaria certamente melhor sem a pressão emigração dos nossos jovens, claro. Mas não é certo que estes por cá tivessem ficado caso não tivesse ocorrido o afluxo de imigrantes registado. Julgo ser de admitir que essa tendência se observasse em qualquer dos casos, motivada pelo diferencial de rendimentos e de oportunidades que encontram a um par de horas de avião.


"De certa forma, os opostos unem-se na identificação da causa das coisas. A pressão vem de fora. Uns apontam aos que nos procuram por motivos económicos (imigrantes). Outros, aos que nos encaram como um destino aprazível para visitar ou investir (turistas e investidores)."


Naturalmente, podemos sempre contra-argumentar que, pelo contrário, sem o afluxo de imigrantes não se observaria a atual pressão nos preços da habitação e, logo, o diferencial entre o rendimento e o custo de vida não se teria agudizado tanto, favorecendo ainda mais a saída de jovens, em especial dos mais qualificados, que veriam os seus rendimentos líquidos reais menos degradados face à média europeia.

No entanto, talvez essa seja uma leitura simplista, talvez mesmo condicionada por perspetivas políticas que apontam aos imigrantes a raiz dos problemas. Uma leitura similar à que, por oposição, aponta as responsabilidades da crise aos novos setores dinâmicos da economia nacional, designadamente o turismo e o investimento internacional. De certa forma, os opostos unem-se na identificação da causa das coisas. A pressão vem de fora. Uns apontam aos que nos procuram por motivos económicos (imigrantes). Outros, aos que nos encaram como um destino aprazível para visitar ou investir (turistas e investidores).

Do meu lado, a visão que tenho é que todos fazem falta. Todos têm o seu papel e, no nível e ritmo certos, são essenciais para dar a escala que a nossa economia necessita para se desenvolver, precisamente para que possa oferecer aos jovens uma perspetiva de vida que os retenha e atraia, alavancada numa economia diversificada e competitiva, necessariamente aberta ao exterior e de perfil exportador.

Todos os vetores estão ligados.

Sem imigração, sem turismo, sem investimento, as paridades de poder de compra poderiam ser menos desfavoráveis. Mas essa receita seria sinónimo de estagnação estrutural, talvez vendo sair menos jovens, mas perdendo sempre mais os de maior ambição e potencial transformador, desiludidos por um país que nivela por baixo.


"Sem imigração, sem turismo, sem investimento, as paridades de poder de compra poderiam ser menos desfavoráveis. Mas essa receita seria sinónimo de estagnação estrutural."


No entanto, como em todos os processos que não são planeados nem monitorizados, os impactos negativos podem emergir com mais escala e perturbar a leitura de longo prazo.

Em especial quando tais dinâmicas afetam mercados de reação lenta, como sucede com a habitação.

Comparando o número de fogos que nós construímos (por mil habitantes) com a média dos países da zona euro, o nosso défice habitacional rondaria os 274 mil fogos (numa metodologia distinta, o Banco de Portugal estimava 300 mil). A revisão da população agrava esse défice em 19 mil fogos, elevando-o para 293 mil.

Ora, se esse é um número avassalador para um país que edificou (concluiu) somente 26,7 mil fogos em 2025, nem por acaso é um dado que se aproxima substancialmente dos 248 mil fogos que o IHRU estimava em 2025 estarem devolutos e em condições de habitabilidade.

Quem se recorda das barracas e ocupações ocorridas com o afluxo de retornados no pós-25 de Abril interrogar-se-á onde residem os 700 mil que não cabiam na anterior estatística. Não estão todos na Benformoso, nem em regime de sobrelotação. Estão nas casas vagas que necessariamente vieram para o mercado, atraídas pelo aumento das rendas e, eventualmente, uma oportunidade de informalidade.

Se antes era legítima (e muito) a discussão entre mais construção ou afetação dos vagos à habitação, agora só sobra mesmo a via da construção. Mas se a construção se mantiver tão onerosa, talvez só sobre mesmo o retrocesso migratório, desmobilizado por uma economia que subiu nos custos muito acima dos rendimentos.

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