Vasco Magalhães

Diretor Geral da MELOM e Querido Mudei a Casa Obras

Opinião

A tendência de converter lojas tradicionais em apartamentos nos grandes centros urbanos

30 Setembro, 2025 · 10:26

Nos principais centros urbanos portugueses, assiste-se a uma tendência crescente e estratégica: a transformação de lojas, muitas vezes devolutas, em apartamentos. Esta reconversão evidencia-se como solução criativa para dinamizar áreas urbanas centrais, sendo que valoriza imóveis que antes se encontravam subaproveitados.

Neste processo, emergem benefícios claros. Trata-se da criação de produtos residenciais modernos, como T0 ou T1 bem localizados, com elevado apelo face à pressão sobre a oferta habitacional e aos preços elevados.

Adicionalmente, ao transformar espaços comerciais desocupados em apartamentos, revitaliza-se o tecido urbano, oferecendo novas oportunidades e promovendo um reequilíbrio no uso do solo.

A entrada em vigor do Simplex urbanístico, em março de 2024, veio acelerar este movimento. Tornou-se possível transformar unidades não residenciais (como lojas, serviços, arrecadações ou garagens) em habitação apenas mediante comunicação prévia às autarquias, que dispõem de 20 dias para responder ou iniciar vistoria. Este mecanismo eliminou a exigência da autorização do condomínio, que até aí representava um obstáculo frequente.


"Em alguns casos, projetos de reconversão tornaram-se a base de novas promoções urbanas, o que demonstra que é possível transformar espaços obsoletos em soluções habitacionais de qualidade."


No entanto, existem outros obstáculos no caminho. Os custos de adaptação podem ser elevados: requisitos como isolamento térmico e acústico, redes de águas e esgotos, segurança e ventilação representam investimentos consideráveis. Além disso, o financiamento para estas reconversões pode ser mais restrito, caso o imóvel não cumpra integralmente os requisitos legais para habitação.

Apesar dos desafios, a prática começa a ganhar espaço no mercado português, em particular nas cidades de Lisboa e Porto, onde a escassez de oferta habitacional se faz sentir com maior intensidade e onde já se registaram centenas de processos submetidos à autarquia.

Outros municípios da Área Metropolitana de Lisboa, como Oeiras, Cascais ou Sintra, também receberam pedidos, confirmando que a tendência vai muito além das duas principais cidades. Em alguns casos, projetos de reconversão tornaram-se a base de novas promoções urbanas, o que demonstra que é possível transformar espaços obsoletos em soluções habitacionais de qualidade.

Em termos sociais e urbanos, esta tendência pode contribuir para reativar bairros, atrair população jovem e criar uma vivacidade renovada. Mas é preciso atenção aos efeitos colaterais: a gentrificação pode impactar a comunidade local, alterar perfis demográficos e pressionar preços.

No fundo, a conversão de lojas tradicionais em apartamentos é um reflexo da capacidade de adaptação das cidades às novas realidades. Se for acompanhada de planeamento adequado, sensibilidade social e rigor técnico, poderá afirmar-se como uma solução sustentável e inovadora para responder aos desafios habitacionais e urbanísticos dos nossos dias.

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