Luís Mário Nunes

CEO da ComprarCasa Portugal e Espanha

Opinião

A liderança que está a chegar! Os líderes da Geração Z

22 Maio, 2025 · 08:51

Há dados que continuam a passar despercebidos pela maioria das empresas e respetivos executivos. Um desses factos é que, até 2030, a Geração Z representará 30% da força de trabalho global. Estamos conscientes disso?

Numa outra perspetiva. Em menos de cinco anos, 1 em cada 3 trabalhadores será da geração Z. Sim, um daqueles jovens que nós, menos jovens, costumamos apelidar de geração “de vidro” que, “nem sabe o que é sacrifício”, nem “é capaz de suportar a pressão” e “não entende o que significa estar comprometido”.

Mas há um dado ainda mais chocante, se possível: apenas metade dos Zs dizem aspirar a ocupar cargos executivos. 50% destes jovens nascidos depois de 1997 não têm interesse em liderar nada. A maioria deles, nem mesmo a sua própria vida.

O problema é que, querendo ou não, mais cedo do que imaginamos – e do que imaginam – estarão a liderar a maioria das empresas do mundo. E nós, os Baby Boomers e Geração X que hoje os criticamos … estaremos em casa, reformados. É a lei natural. Como alguém diria…. “é a vida a acontecer!”.

Esta será uma realidade transversal a todos os setores de atividade e o nosso, o imobiliário, não será exceção.

Nos próximos tempos teremos, desde as grandes marcas, às empresas de mediação imobiliária familiar, a ser lideradas por “malta” jovem; raparigas e rapazes que trarão outras ideias e novas dinâmicas.

Assim, a grande questão é: será que o mundo está pronto para a próxima grande mudança geracional ao nível da liderança?

Mas vamos por partes.

Já todos fomos Z (embora agora muitos sofram de amnésia)

O curioso do debate geracional é que os idosos pensam como se nunca tivéssemos tido vinte anos… E os jovens como se nunca fossem fazer sessenta anos.

Todos nos esquecemos de algo essencial: que o tempo não é ideologia, é biologia.

E se a vida não correr mal, acabamos todos por passar pelos mesmos dilemas. Apenas com bandas sonoras de diferentes estilos musicais e com mais ou menos smartphones.


"Todos nos esquecemos de algo essencial: que o tempo não é ideologia, é biologia."


Nós, os mais velhos, esquecemo-nos do nosso passado com demasiada facilidade. Um passado em que patrões autoritários também existiram. Em que fomos a voz da mudança. Em que sonhávamos em melhorar tudo. O mesmo acontece hoje com os jovens.

E é que vivemos no esquecimento e na ignorância mútuos. Um esquecimento que nos leva boomers e geração X a ver no Z uma geração suave, caprichosa, incapaz de sustentar o mundo. E uma ignorância – produto da falta de experiência – que leva os Zs a verem em nós um bando de conformistas tecnologicamente atrofiados.

Nós, mais velhos, acreditamos que a nossa experiência nos dá legitimidade para continuar a ditar como as coisas devem ser feitas. Os jovens acreditam que a sua frescura e facilidade em lidar com as novas tecnologias lhes dá o direito de redefinir tudo, sem compreender que a sabedoria é adquirida lentamente. A da experiência.

E, neste ponto, a chave não é quem está certo, mas entender que ambos somos parte disso.

A experiência sem humildade torna-se arrogante. E a frescura sem perspetiva transforma-se em arrogância.

Algo que devemos relevar é que liderar na era da intergeracionalidade não é impor. Trata-se de integrar. Não se trata de tolerar. Trata-se de compreender. E não se trata de ceder. Trata-se de saber quando soltar o volante e quando ultrapassá-lo.

E essa é a pergunta que todos os líderes de hoje deveriam estar a fazer: a quem vou passar a roda daqui a 5 anos? E em que condições vou entregar o carro?

Não basta treinar o substituto. Tem de lhe entregar um veículo que ainda funcione. Uma equipa que ainda confia. Um legado sobre o qual podemos continuar a construir, sem necessidade de destruir.

O que a maioria dos executivos não entende é que liderar não é conservar. Está a transformar-se. E se o mundo está a mudar, a liderança também tem de mudar.

Isso implica aceitar uma verdade inconveniente: muitas das ferramentas que funcionavam ontem já não são úteis hoje.


"O que a maioria dos executivos não entende é que liderar não é conservar. Está a transformar-se. E se o mundo está a mudar, a liderança também tem de mudar."




Hoje, os líderes que inspiram não são os que dão ordens. São eles que criam o contexto. São eles que projetam espaços onde as pessoas, seja qual for o ano, possam encontrar significado, conexão e possibilidade de crescimento.

E para isso precisamos de algo que não é ensinado em MBAs: precisamos desaprender. Desaprender a ideia de que a liderança se ganha pela antiguidade. Desaprender que o compromisso se mede pelas horas extraordinárias. Desaprender que liderar é ter todas as respostas.

Porque se a Geração Z nos diz alguma coisa com o seu aparente desinteresse pela liderança tradicional, é que não pretende herdar os nossos tronos… querem redesenhar o ambiente de trabalho.

Porque talvez não precisemos de mais líderes que criem a última Coca-Cola no deserto, mas de mais líderes com uma consciência humanista. Mais humildes. Mais modestos. Mais capazes de ouvir. Para se olharem ao espelho.

Não precisamos de mais controladores de processos, mas de mais facilitadores de propósito.

Porque, a liderança que vem será mais horizontal, mais humana, mais híbrida. Será desconfortável, porque quebrará muitas lógicas herdadas de poder. E vai ser exigente, porque vai pedir aos seniores que se soltem e aos juniores que se sustentem.

Mas se fizermos bem “as coisas”, será uma melhor liderança. Não para nós. Para todos. E é nisso que temos de nos concentrar. Não no que nos diferencia, mas no que nos une. O que nos beneficia.

A liderança do futuro não pertencerá a um ou a outro. Será partilhada, intergeracional e mais humana. Não será uma luta de poder entre gerações, mas uma coreografia entre visões diferentes que se enriquecem mutuamente. Uma liderança menos hierárquica e mais conversacional, onde o papel do líder não será impor respostas, mas sim facilitar perguntas e criar ambientes onde o talento de todos floresça.

A grande questão, portanto, não é quem tem razão. Porque ambos os lados a terão, pelo menos, em parte. A verdadeira questão é: como construir juntos uma alternância que não fratura, mas fortalece? Como construir pontes onde hoje existem trincheiras? Como deixar de competir para começar a co-construir?

E se queremos que o mundo continue a funcionar quando eles estão no comando, é melhor pararmos de desprezá-los e começarmos a acompanhá-los. Não de autoridade, mas de humildade. Porque o futuro, gostemos ou não, conjuga-se no presente. E já começou.

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