
Paulo Lopes
CEO da Casa Iberia
Opinião

CEO da Casa Iberia
Opinião
Sempre que falamos de habitação em Portugal, a discussão acaba quase inevitavelmente nos mesmos temas: o preço das casas, o valor das rendas, a falta de oferta, os investidores estrangeiros, o alojamento local ou as taxas de juro. Todos estes fatores influenciam o mercado, mas nenhum explica, por si só, a origem estrutural do problema: a dificuldade do país em decidir, licenciar e executar com previsibilidade. Porque a crise da habitação não começa nas casas.
Ao longo dos últimos anos, tornou-se evidente que Portugal consegue atrair investimento, talento e procura. Empresas internacionais escolhem o país para instalar centros tecnológicos, infraestruturas digitais e projetos industriais. Famílias portuguesas continuam a procurar casa. Novos residentes internacionais escolhem Portugal para viver. O problema nunca foi a falta de procura, mas sim a dificuldade em responder a essa procura.
"Uma casa não começa quando se coloca a primeira pedra; começa na previsibilidade das regras, na rapidez das decisões, na eficiência das instituições e na confiança de quem investe."
Quando um processo de licenciamento demora anos, quando pareceres sucessivos atrasam projetos, quando a incerteza administrativa aumenta os custos e quando o tempo se transforma num dos maiores obstáculos ao investimento, a oferta chega tarde, em menor quantidade e a preços mais elevados. As consequências surgem em cadeia: menos oferta, maior pressão sobre os preços e mais dificuldade de acesso à habitação.
É por isso que continuo a acreditar que o debate sobre a habitação precisa de evoluir. Durante demasiado tempo discutimos apenas o mercado imobiliário, quando talvez devêssemos discutir, acima de tudo, a capacidade do país para executar. Uma casa não começa quando se coloca a primeira pedra; começa na previsibilidade das regras, na rapidez das decisões, na eficiência das instituições e na confiança de quem investe. Porque nenhum promotor consegue construir depressa quando o sistema decide devagar.
Nos últimos anos falou-se muito sobre incentivos, benefícios fiscais, alterações legislativas e programas públicos. Algumas dessas medidas podem ser importantes. Mas dificilmente resolverão o problema estrutural se continuarmos a ignorar aquilo que acontece antes da construção. A verdadeira política de habitação começa na qualidade das instituições e na sua capacidade de transformar projetos em obras, e obras em casas.
"Quando um país executa melhor, ganha confiança, atrai investimento, cria emprego e constrói cidades capazes de responder às necessidades das próximas gerações."
Portugal tem hoje empresas competentes, investidores interessados, conhecimento técnico e uma necessidade evidente de aumentar a oferta habitacional. Reúne praticamente todas as condições para responder ao desafio. O que falta, demasiadas vezes, é transformar intenção em execução. Talvez por isso a maior reforma da habitação nem sequer pertença exclusivamente ao setor imobiliário, mas à forma como o Estado decide, coordena e cumpre os seus próprios prazos.
Por isso, a prioridade deve ser clara: garantir prazos vinculativos, coordenação efetiva entre entidades públicas e decisões administrativas previsíveis. Quando um país executa melhor, ganha confiança, atrai investimento, cria emprego e constrói cidades capazes de responder às necessidades das próximas gerações.
No fundo, a habitação não revela apenas o estado do mercado imobiliário. Revela, acima de tudo, a qualidade do país que somos capazes de construir.