Construção

Mais casas, menos andares: o retrato da construção em Portugal

Maio 23, 2025 · 11:22 am
Foto de Jenia Flerman na Unsplash

Nos últimos 13 anos, o país mudou e as casas que nele se constroem também. Entre 2011 e 2023, Portugal assistiu a uma redução no ritmo do licenciamento, a uma predominância da construção nova e a uma pressão construtiva cada vez mais concentrada no litoral e nas áreas metropolitanas.

A mais recente publicação do Instituto Nacional de Estatística (INE), Pressão Construtiva 2011-2023, traça um retrato detalhado da evolução do licenciamento habitacional em Portugal. Que dinâmicas moldaram o território? Onde se construiu mais? E o que nos dizem os números sobre o tipo de casas que estamos a construir?


  1. Licencia-se menos, mas ainda se constrói

A chamada dinâmica construtiva potencial, ou seja, a relação entre os fogos licenciados e o total existente em 2011, foi de 5,4% em todo o país ao longo do período. Em média, por cada 100 casas existentes em 2011, surgiram 5 novas com base em licenciamento.

Mas o ritmo abrandou:



  • O número de edifícios licenciados caiu 0,6% ao ano, em média.

  • Também os pisos por edifício diminuíram ligeiramente, de 1,8 em 2011 para 1,7 em 2023.


Apesar disso, há uma constante: a construção nova continuou a dominar, mesmo com um pico de obras de reabilitação entre 2012 e 2014.

2. Construção nova: menos altura, menos divisões

Ao longo dos anos, a dimensão dos fogos licenciados diminuiu ligeiramente:



  • A média de divisões por fogo passou de 4,6 em 2011 para 4,1 em 2023.

  • A área habitável por fogo (soma das superfícies das divisões habitáveis) diminuiu 118,3 m2 para 79,7 m2, uma quebra de quase 33%.

  • A altura média das construções também desceu, refletindo talvez uma tendência para edifícios mais baixos ou uma maior aposta em moradias.


E quanto às tipologias? O T3 ou superior continua a liderar, o que pode sinalizar uma preferência por habitações familiares, apesar da diminuição nas dimensões.


  1. A reabilitação perdeu fôlego

Houve uma altura em que as obras de reabilitação quase rivalizaram com a construção nova. Foi entre 2012 e 2014, quando o número de licenças para reabilitação chegou a 60,2 por cada 100 novas construções.

Mas desde então, o entusiasmo arrefeceu. Em 2023, este rácio caiu para 30,3. A área licenciada para reconstrução também se manteve sempre residual, não ultrapassando os 5% do total, com uma queda acentuada para 1,6% em 2023.


  1. Pressão assimétrica: litoral atrai, interior retrai

Se há uma tendência clara, é esta: a pressão construtiva não é igual em todo o território. O litoral e as regiões metropolitanas continuam a absorver a maior parte da nova construção.

Os destaques:


  • Grande Porto e Grande Lisboa concentraram mais de 34% dos 321.697 fogos licenciados entre 2011 e 2023.

  • A Área Metropolitana do Porto tem a maior taxa média de crescimento anual do número de licenciamentos de fogos, de 9,9%.

  • Cávado (9,7%), Ave (8,9%) e Área Metropolitana do Porto (7,4%) lideram a dinâmica construtiva.

  • Também a Grande Lisboa e a Península de Setúbal mostram sinais de crescimento, coincidentes com aumentos populacionais.


Por contraste:

  • O interior do país apresenta valores muito inferiores. Beiras e Serra da Estrela (33,3 hab./km²) e Beira Baixa (19,0 hab./km²) são dois dos territórios com menor densidade populacional e menor dinamismo construtivo.



  1. População: crescimento desigual, mas significativo

Entre 2011 e 2023, a população residente em Portugal cresceu 0,7%. Mas este número esconde realidades muito distintas:


  • De 2011 a 2021, houve decréscimo populacional (-2,1%).

  • Entre 2021 e 2023, deu-se um crescimento rápido (+2,9%).


As regiões com maior crescimento populacional coincidem com as de maior atividade construtiva:

  • Algarve (+7,3%)

  • Península de Setúbal (+7,1%)

  • Grande Lisboa (+4,1%)


Em suma, o período entre 2011 e 2023 foi marcado por uma dinâmica construtiva assimétrica no país, refletindo desigualdades territoriais significativas no ritmo e na natureza do desenvolvimento urbano.

A predominância da construção nova, a ligeira redução na verticalidade dos edifícios e o peso ainda limitado da reabilitação urbana evidenciam uma abordagem predominantemente expansiva, com maior intensidade nas regiões litorais e metropolitanas.

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