Dicas
Entrou na universidade. E agora, onde vai morar?
Agosto 25, 2026 · 11:41 am
Image by kues1 on Magnific
Mais de 49 mil estudantes conseguiram colocação na primeira fase do acesso ao ensino superior. Para muitos, começa agora outra corrida: encontrar um quarto. Há mais oferta nas principais cidades universitárias, mas os preços continuam elevados. E este ano há novas regras nos apoios ao alojamento.
Para milhares de jovens, a entrada no ensino superior significa também a primeira experiência a viver longe de casa. Depois de saberem onde vão estudar, começa a procura por um quarto, uma residência universitária ou uma casa partilhada.
2026 parece trazer uma boa notícia: há mais quartos disponíveis nas principais cidades universitárias. A má notícia é que o aumento da oferta não se traduziu numa descida generalizada das rendas.
Ao mesmo tempo, o ano letivo 2026/2027 traz alterações importantes aos apoios destinados aos estudantes deslocados. O complemento de alojamento dos estudantes bolseiros sobe para 30% do IAS, ou 161,14 euros mensais, e passa a existir uma nova tabela de valores de referência para o alojamento privado, diferenciada por concelho.
Por outro lado, quem entra pela primeira vez no Ensino Superior pode ter direito à nova Bolsa de Incentivo (no valor de 1.075 €), no caso do agregado familiar pertencer ao 1.º escalão do Abono de Família, acumulável com a bolsa de estudo.
O novo regulamento passa também a definir custos de frequência do Ensino Superior diferenciados por concelho, mas a aplicação integral do novo modelo de bolsas só acontece em 2027/2028. Para 2026/2027, há um regime transitório.
Quanto custa um quarto nas principais cidades universitárias?
Lisboa continua a ser a cidade mais cara: um quarto custa, em média, cerca de 500 euros por mês, valor semelhante ao registado no ano passado.
No Porto, pelo contrário, o preço médio subiu. Arrendar um quarto custa agora cerca de 430 euros mensais, mais 30 euros do que em 2025.
Em Coimbra, a renda média mantém-se nos 300 euros, enquanto em Aveiro ronda os 350 euros.
A fotografia do país mostra uma realidade aparentemente contraditória: há mais oferta, mas os preços continuam elevados e, em alguns casos, até aumentaram.
Fonte: Observatório do Alojamento Estudantil / Alfredo Student
Viver fora de Lisboa pode não significar poupar muito
Uma das estratégias utilizadas pelas famílias é procurar alojamento nos concelhos próximos das grandes cidades universitárias. Mas também aqui é preciso fazer contas.
Na região de Lisboa, a renda média indicada pelo Observatório do Alojamento Estudantil é de 500 euros em Oeiras e 420 euros em Almada. A diferença para os 500 euros de Lisboa é, portanto, relativamente pequena ou nenhuma.
No Grande Porto, a diferença também não é muito expressiva: os valores médios situam-se em cerca de 425 euros em Matosinhos, 400 euros em Gondomar e na Maia.
A poupança potencial tem ainda de ser confrontada com o custo e o tempo das deslocações.
Um quarto mais barato pode deixar de o ser se obrigar a gastar mais todos os dias em transportes e várias horas por semana no percurso entre casa e universidade.
O apoio ao alojamento mudou em 2026
Uma das maiores novidades deste ano letivo está nos apoios aos estudantes deslocados.
A reforma da ação social no ensino superior, regulamentada pela Portaria n.º 331-B/2026/1, de 10 de agosto, estabelece novas regras para o alojamento dos estudantes bolseiros deslocados.
A partir do ano letivo 2026/2027, o complemento mensal de alojamento passa a corresponder a 30% do IAS, quando estão reunidas as condições previstas no regime. Como o IAS de 2026 é de 537,13 euros, o valor correspondente a 30% é de 161,14 euros por mês.
Mas este é o valor de base. Se o estudante bolseiro deslocado tiver pedido lugar numa residência universitária e não conseguir vaga, ou se não existir residência no local onde estuda, pode beneficiar de uma majoração da bolsa.
E se não houver vaga numa residência?
O estudante bolseiro deslocado deve procurar primeiro uma vaga numa residência universitária quando esta existe e, quando não consegue lugar ou não existe residência no concelho, pode beneficiar das regras relativas ao alojamento privado previstas no novo regime. Nesse caso, a componente de alojamento é aumentada tendo em conta o valor de referência definido para o alojamento privado no concelho.
Uma das novidades mais relevantes é que, para esta majoração por falta de vaga numa residência, a Portaria não estabelece como requisito a apresentação de um contrato de arrendamento, uma importante medida num mercado onde a informalidade continua a imperar. O estudante terá, contudo, de comprovar que pediu alojamento numa residência e não obteve vaga, salvo quando não exista oferta de residência no local onde frequenta o curso.
A Portaria estabelece valores mensais de referência (ver Anexo II) para os custos do alojamento privado, diferentes consoante o concelho.
Entre os valores mais elevados encontram-se:
- Lisboa: 500 euros
- Cascais: 488 euros
- Oeiras: 459 euros
- Porto: 419 euros
- Matosinhos: 395 euros
- Aveiro: 345 euros
- Vila Nova de Gaia: 367 euros
- Coimbra: 338 euros
- Setúbal: 378 euros
É importante não confundir estes valores com o montante que cada estudante recebe. Um estudante deslocado em Lisboa não recebe automaticamente 500 euros por mês. Estes são valores de referência utilizados para o cálculo da majoração do apoio ao alojamento privado, de acordo com as condições previstas na legislação.
Quem é considerado estudante deslocado?
Também há uma nova regra importante para determinar quem pode ser considerado estudante deslocado.
O novo regime estabelece como critério automático uma distância de 50 quilómetros ou mais entre a residência permanente do estudante e o campus ou unidade orgânica que frequenta.
Quando a distância é inferior, a instituição de ensino superior pode ainda reconhecer a condição de estudante deslocado, tendo em conta as circunstâncias concretas, nomeadamente os transportes disponíveis, os tempos de deslocação, os horários e outras necessidades de mobilidade.
Isto significa que a distância não deve ser analisada apenas em quilómetros: a realidade dos transportes e o tempo necessário para chegar à instituição também podem ser relevantes.
E quem fica numa residência universitária?
O novo regime aumenta também o preço máximo mensal que pode ser cobrado aos estudantes bolseiros alojados nas residências dos serviços de ação social: passa de 17,5% para 30% do IAS, ou seja, 161,14 euros em 2026.
O valor não deve ser confundido com um subsídio adicional pago ao estudante.
Mais camas públicas a caminho, mas execução ainda longe da meta
O Plano Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES) está a reforçar a oferta de residências públicas, com o objetivo de aumentar a capacidade de cerca de 15 mil camas em 2021 para aproximadamente 26 mil em 2026.
Mas a execução das obras financiadas pelo PRR continua atrasada. Segundo o último balanço de execução divulgado, com dados reportados a 24 de junho de 2026, estavam concluídas 5.014 das 18.758 camas abrangidas pelos 134 projetos financiados pelo PRR, o equivalente a cerca de 27%. Dos projetos, 53 estavam concluídos e 81 continuavam em obra. As obras concluídas representavam cerca de 129 milhões de euros, num investimento global previsto de quase 467 milhões.
A meta do programa continua a apontar para cerca de 26 mil camas públicas disponíveis em 2026, mas não existe, até ao momento, um balanço público consolidado que permita confirmar quantas dessas camas estão efetivamente disponíveis para estudantes no arranque do ano letivo 2026/2027.
Para as famílias, esta diferença é importante: uma cama prevista no âmbito do PNAES não é necessariamente uma cama já disponível para ocupação.
Residências privadas: mais caras, mas com despesas incluídas
Enquanto a oferta pública é reforçada, as residências privadas continuam a ganhar espaço, sobretudo em Lisboa, Porto e Coimbra. Operadores como a Nido, Xior e Livensa Living disponibilizam quartos com serviços incluídos, mas a preços geralmente superiores aos praticados no arrendamento tradicional.
A vantagem, para muitas famílias, está na previsibilidade dos custos: a mensalidade pode incluir água, eletricidade, internet, limpeza, espaços comuns e outros serviços.
A Livensa Living, por exemplo, refere uma crescente procura por parte de famílias portuguesas e indica que, no último ano letivo, cerca de metade dos residentes nas suas unidades de Lisboa, Porto e Coimbra eram portugueses, incluindo estudantes bolseiros.
Na residência da Cidade Universitária, em Lisboa, um quarto partilhado ronda os 600 euros mensais, com despesas incluídas, de acordo com a informação prestada pela empresa à Lusa.
Existe ainda uma terceira via: as camas protocoladas. As instituições de ensino superior podem celebrar acordos com entidades públicas, privadas e do setor social para disponibilizar alojamento a estudantes deslocados. O programa foi prolongado em 2026 e o Estado autorizou até 3,6 milhões de euros para suportar estes alojamentos.
Estas camas são, portanto, lugares contratualizados pelas instituições de ensino superior e atribuídos através dos seus serviços de ação social. A oferta de camas protocoladas pode ser consultada no portal da DGES e junto dos Serviços de Ação Social da instituição de ensino superior frequentada.
E as bolsas de estudo?
Os prazos de candidaturas às Bolsas de Estudo para o ano letivo 2026/2027 foram alterados. Excecionalmente para este ano letivo, o requerimento de atribuição da bolsa de estudo para um ano letivo deve ser submetido entre 14 de agosto e 02 de outubro, havendo ainda situações e prazos específicos previstos no calendário.
A candidatura é realizada através da plataforma BeOn do Instituto para o Ensino Superior (IES). A informação sobre bolsas e outros apoios pode também ser consultada no Portal da Educação que passou a funcionar como ponto de acesso centralizado aos serviços e informação da Educação e do Ensino Superior.
O alojamento pode ser apoiado através da ação social do ensino superior, mas é importante distinguir bolsa de estudo de complemento de alojamento.
E se o estudante não for bolseiro?
Os estudantes que não recebem bolsa também podem ter direito a complemento de alojamento, desde que cumpram as condições previstas. Para o requerer, devem começar por apresentar uma candidatura a bolsa de estudo e assinalar que pretendem ser considerados para este apoio caso a bolsa seja recusada por excesso de rendimentos.
Este apoio corresponde ao encargo efetivamente pago e comprovado por recibo, até ao limite de 50% dos valores de referência aplicáveis ao complemento dos estudantes bolseiros. Os limites variam consoante o concelho.
Há uma nova ferramenta para procurar alojamento
Para ajudar os estudantes a encontrar alternativas, a DECO PROteste lançou em agosto duas novas funcionalidades na plataforma querocasa.pt, reunindo informação sobre soluções de alojamento disponibilizadas por instituições de ensino superior e municípios.
A ferramenta permite procurar alojamento e identificar municípios que têm oferta ou programas específicos de apoio a estudantes deslocados.
A DECO recomenda ainda que a procura comece o mais cedo possível e que os estudantes não se limitem à cidade onde vão estudar, alargando a busca a concelhos vizinhos.
E quando não se arranja um quarto?
Quando os quartos são escassos ou demasiado caros, juntar dois, três ou quatro colegas e arrendar uma casa pode ser uma alternativa. A renda é dividida entre todos e cada estudante pode acabar por pagar menos do que pagaria por um quarto individual ou partilhado, embora seja necessário somar as despesas, caução e outros custos.
Em CasaYes.pt, os estudantes podem procurar um apartamento ou uma casa para arrendar e dividir os custos com colegas.
Os jovens arrendatários podem ainda recorrer ao Porta 65 Jovem, um programa de subvenção às rendas para jovens entre 18 e 35 anos. Permite candidaturas mesmo sem contrato formal, com simulação de apoio disponível no Portal da Habitação.
As tradicionais repúblicas, onde os estudantes vivem em comunidade e contribuem em conjunto para as despesas, são alternativas, sobretudo nas cidades com mais tradição académica
Muitos jovens recorrem a redes informais como grupos de WhatsApp, Facebook, Instagram, associações de estudantes, grupos de antigos alunos, colegas de curso e redes pessoais para encontrar alojamento nas cidades universitárias.
É frequente uma vaga numa casa partilhada nem sequer chegar a ser anunciada publicamente: alguém sai, um colega conhece outro estudante que procura casa e o quarto é ocupado através do passa-palavra.
Contudo, quanto mais informal é o processo, maior deve ser o cuidado do estudante. Nunca se deve entregar dinheiro sem antes confirmar quem tem legitimidade para arrendar o imóvel, importa visitar a casa, sempre que possível, e formalizar o acordo de arrendamento.
Plataformas comunitárias
Perante a escassez de oferta, surgem soluções alternativas. Uma das mais interessantes é a Partilha Casa, uma plataforma que promove a partilha de alojamento entre gerações, juntando seniores e jovens universitários. Se, por um lado, mitiga a crise habitacional, também combate a solidão dos mais velhos, permitindo aos estudantes acesso a alojamento acessível, enquanto os seniores beneficiam da companhia. A iniciativa está disponível em várias cidades, incluindo Lisboa, Coimbra e Évora.
A Rede 1/4, lançada pela Universidade Nova de Lisboa, aproxima senhorios e estudantes através de uma plataforma que promove o arrendamento acessível.
Vai arrendar um quarto? Há coisas que deve confirmar primeiro
Encontrar rapidamente um quarto pode ser tentador, sobretudo quando faltam poucos dias para o início das aulas. Mas há alguns cuidados que podem evitar problemas.
Antes de pagar uma caução ou sinal, confirme:
- qual é o valor total mensal;
- quais as despesas incluídas;
- se existe contrato;
- se são emitidos recibos;
- qual é o valor e as condições da caução;
- qual é o período mínimo de permanência;
- se o quarto é individual ou partilhado;
- se a cozinha e casas de banho são partilhadas;
- quem pode utilizar as zonas comuns;
- qual é a distância e o tempo real até à instituição;
- quais são as regras da casa;
- se existem fotografias recentes e correspondentes ao imóvel.
E, sobretudo, não transfira dinheiro sem confirmar quem está a arrendar o imóvel e em que condições.
Num mercado com muita procura, anúncios falsos ou quartos que não correspondem ao prometido podem transformar a urgência numa despesa difícil de recuperar.
No fundo, encontrar alojamento para estudar longe de casa continua a ser uma questão de fazer contas e procurar alternativas. Com mais oferta, mas preços ainda elevados, comparar quartos, casas partilhadas, residências e apoios disponíveis pode fazer a diferença entre uma solução que pesa demasiado no orçamento e outra que permite começar a vida universitária com menos pressão.
Dicas
A aventura da universidade: dicas imprescindíveis para caloiros destemidos
Estás prestes a entrar na universidade? Neste guia traçamos um manual de sobrevivência para ajudar os estudantes que saem de casa da família a superar esta nova etapa. Preparado para arrasar? Então, continua a ler!