Habitação

Casas em Portugal são as mais sobrevalorizadas na UE

Dezembro 17, 2025 · 11:36 am
Imagem de wirestock no Freepik

A Comissão Europeia estima que os preços da habitação em Portugal estejam sobrevalorizados em cerca de 25%, a percentagem mais elevada na União Europeia (UE), num contexto em que o mercado imobiliário europeu enfrenta uma crise estrutural que afeta já todos os Estados-membros.

“De acordo com os dados mais recentes disponíveis, os preços da habitação permaneceram sobrevalorizados em vários países da UE no segundo semestre de 2025. A Comissão estima que a sobrevalorização média mais elevada se verifica em Portugal, em cerca de 25%, ultrapassando outros mercados imobiliários”, refere o executivo comunitário num relatório sobre a crise da habitação que acompanha o Plano Europeu para a Habitação Acessível.

Segundo a Comissão, “o crescimento dos preços da habitação começou a ultrapassar o crescimento dos rendimentos em 2016 e o fosso entre ambos aumentou acentuadamente”, sendo que os maiores aumentos na última década “se verificaram em Portugal, Países Baixos, Hungria, Luxemburgo, Irlanda, República Checa e Áustria”.

Preços a subir, rendimentos não acompanham

Entre 2013 e 2024, os preços das casas aumentaram em média 60% no conjunto da UE, enquanto as rendas subiram cerca de 20% no mesmo período, com aumentos significativamente mais rápidos quando se consideram apenas os novos contratos de arrendamento. Em paralelo, os licenciamentos de edifícios residenciais caíram cerca de 22%, contribuindo para uma escassez de oferta que agrava a pressão sobre os preços.

Apesar desta falta de habitação acessível, cerca de 20% do parque habitacional europeu encontra-se desocupado. A Comissão Europeia alerta que este desequilíbrio estrutural tem consequências sociais graves: mais de um milhão de pessoas vivem atualmente em situação de sem-abrigo na UE, das quais cerca de 400 mil são crianças.

Plano Europeu para Habitação Acessível

É neste contexto que Bruxelas apresentou esta terça-feira o primeiro plano ao nível europeu dedicado à habitação a preços acessíveis. O pacote de dez medidas assenta em quatro pilares: aumento da oferta habitacional, mobilização de investimento, apoio imediato aos Estados-membros através da revisão de regras e proteção da população mais vulnerável.

O plano inclui uma estratégia para a construção habitacional com foco na reabilitação de casas devolutas e na reconversão de edifícios, a simplificação dos processos de licenciamento, a revisão das regras de auxílios de Estado e o reforço do financiamento europeu, através do orçamento comunitário, fundos de coesão, programa InvestEU e Banco Europeu de Investimento.

Nos próximos 10 anos, a Comissão estima que será necessário construir cerca de 650 mil novas habitações por ano na UE, o que exigirá um investimento público e privado na ordem dos 150 mil milhões de euros anuais.

Bruxelas quer travar especulação e reforçar transparência

Um dos eixos centrais do plano passa pelo combate à especulação imobiliária. A Comissão Europeia pretende promover uma maior transparência no mercado residencial, trabalhando com as autoridades nacionais no acesso a dados sobre transações para “identificar padrões especulativos”.

Haverá “propostas de ações de seguimento quando tal se revele necessário” e será feito um esforço para colmatar lacunas de informação, nomeadamente sobre propriedade imobiliária e transações-chave. O executivo comunitário defende ainda a partilha de boas práticas entre Estados-membros, apostando na “inovação no combate à especulação imobiliária, com base em experiências locais e nacionais”, incluindo soluções ao nível da tributação e medidas para lidar com imóveis vagos.

A Comissão alerta que “os investimentos feitos com o objetivo de obter rendimento de curto prazo estão a levantar preocupações quanto a distorções do mercado, sobreavaliação e pressões especulativas”. Em muitas cidades europeias e destinos turísticos, “os preços das casas estão a tornar-se cada vez desligados dos rendimentos disponíveis dos residentes”, sendo que “os dados limitados e a falta de transparência quanto à propriedade e a transações imobiliárias chave impedem as autoridades públicas de monitorizar os desenvolvimentos do mercado”.

Está prevista a apresentação, até ao final de 2026, de um estudo aprofundado sobre as dinâmicas dos preços da habitação, incluindo evidências de padrões especulativos, lacunas de dados e impactos económicos, acompanhado de propostas de medidas “onde seja necessário”.

Alojamento local e direitos dos inquilinos sob escrutínio

O arrendamento de curta duração é identificado como um dos fatores de pressão sobre o mercado habitacional, podendo representar até 20% do parque habitacional em algumas cidades europeias, após um crescimento superior a 90% na última década.

O comissário europeu para a Habitação, Dan Jørgensen, considera que a UE enfrenta “uma crise social na Europa” e defende que Bruxelas deve assumir um papel mais ativo numa área até agora dominada pelos Estados-membros. O dinamarquês admite novas regras europeias para o alojamento local e promete apresentar políticas, incluindo legislativas, para responder às consequências da expansão deste tipo de arrendamento.

Jørgensen quer também reforçar a proteção dos inquilinos, questionando se “estamos a proteger os inquilinos suficientemente bem” e garantindo que a Comissão está a analisar todas as possibilidades para assegurar que os seus direitos sejam levados a sério.

Impacto esperado em Portugal

Portugal surge como um dos países mais expostos à atual crise, não só pela forte subida dos preços e das rendas, mas também pela divergência acentuada face ao crescimento dos rendimentos. Um relatório recente da Comissão Europeia chegou mesmo a estimar que os preços das casas em Portugal estejam sobrevalorizados em cerca de 25%, a maior sobrevalorização média na UE e a que mais aumentou em 2024.

Com o Plano Europeu para a Habitação Acessível, Bruxelas assume que o problema deixou de ser apenas nacional e passa a exigir uma resposta coordenada a nível europeu, com implicações diretas para países como Portugal, onde o acesso à habitação se tornou um dos principais desafios económicos e sociais.

Fonte: Lusa/ Redação

Habitação

Eurodeputados propõem IVA “super reduzido” na construção

Relatório do Parlamento Europeu defende redução fiscal, entre outras medidas para travar a crise da habitação.

Habitação

Apoios até 5 mil euros para casas danificadas devem ser pagos em três dias

Apoios do Governo à reconstrução de habitações afetadas pelo mau tempo vão até 10 mil euros.

Habitação

Governo admite clarificar regras do IVA da construção

Setor imobiliário e da construção defende estabilidade das regras para responder à crise da habitação.

Leia mais

Arquitetura

“Habitar Portugal”: 100 obras de arquitetura em 50 anos de democracia

Comprar Casa

Como tirar a máscara a uma casa na primeira visita

A casa pode estar disfarçada, mas há sinais que não enganam.

Investimento

Investimento imobiliário cresce 22% e reforça atratividade do mercado nacional

O investimento imobiliário em Portugal totalizou 2,8 mil milhões de euros em 2025.

Ajuda imediata ou dívida futura?

Famílias afetadas pelo mau tempo devem analisar bem as propostas de apoio dos bancos, alerta Deco Proteste.