Profissionais
A nova mediação imobiliária já chegou: e agora?
Julho 1, 2026 · 3:36 pm
A futura obrigatoriedade de formação para acesso à profissão, a crescente integração da inteligência artificial na mediação e a necessidade de responder ao défice estrutural de habitação marcaram o IMOCIONATE 2026, que reuniu, esta terça-feira, no Estoril, alguns dos principais protagonistas do setor imobiliário nacional.
Organizado pela APEMIP – Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal, em parceria com o Grupo Iberinmo, o encontro juntou reguladores, economistas, operadores do mercado, consultores e especialistas internacionais para discutir um setor que enfrenta simultaneamente novas exigências regulatórias, alterações fiscais e uma profunda transformação tecnológica.
Nova lei da Mediação Imobiliária
Uma das principais novidades avançadas durante a convenção foi o ponto de situação da nova Lei da Mediação Imobiliária, atualmente em circuito legislativo. O presidente do Conselho Diretivo do IMPIC, Fernando Batista, confirmou que o diploma irá introduzir requisitos obrigatórios de formação e aprovação em exame para quem pretenda exercer a atividade, num processo que pretende reforçar a qualificação e a credibilidade da profissão.
O responsável destacou ainda a modernização dos processos do regulador, revelando que o tempo médio para emissão de licenças de mediação passou de cerca de um ano para apenas três dias, graças à digitalização dos serviços e à utilização de ferramentas de inteligência artificial.
“Temos que ter a confiança, o conforto e o coração aberto para dizer: ‘Eu trabalho em mediação, eu sou agente imobiliário com orgulho’, porque esta é uma profissão incrível e que merece dignificação”, afirmou Patrícia Barão, presidente da APEMIP.
Patrícia Barão, defendeu que o futuro da mediação passa pela valorização da profissão, pelo reforço da formação e pela capacidade de colocar as pessoas no centro do negócio, lembrando que a relação de confiança continua a ser o principal ativo dos mediadores.
Mercado continua condicionado pela falta de oferta
O enquadramento económico foi outro dos temas centrais da convenção.
Philippe Laporte, CEO da UCI, considerou que Portugal continua a apresentar indicadores económicos relativamente resilientes no contexto europeu, embora tenha alertado para a persistência da incerteza internacional e para o impacto das taxas de juro na capacidade de compra das famílias.
No debate sobre o futuro da economia, a conclusão foi praticamente unânime: a crise da habitação continuará a existir enquanto não aumentar significativamente a oferta.
Pedro Brinca, economista, defendeu que continua a ser mais fácil implementar políticas direcionadas para estimular a procura do que resolver os bloqueios estruturais da construção.
A deslocação da procura para concelhos periféricos das áreas metropolitanas foi igualmente identificada como uma das principais tendências do mercado.
Alterações fiscais criam novas áreas de negócio
As recentes medidas fiscais para a habitação ocuparam uma parte significativa da manhã.
Os advogados João Fitas e António Queiroz Martins analisaram o novo enquadramento fiscal do arrendamento e da habitação a preços moderados, defendendo que as alterações representam uma oportunidade para que as empresas de mediação reforcem a sua intervenção junto de investidores, promotores e proprietários.
Entre os incentivos apresentados destacam-se a aplicação da taxa reduzida de IVA à construção de habitação moderada, benefícios fiscais associados ao arrendamento e novos mecanismos de incentivo ao investimento.
No debate que se seguiu, economistas e representantes do setor alertaram, contudo, que a redução da carga fiscal, por si só, não será suficiente para resolver o problema da habitação sem estabilidade legislativa e maior capacidade construtiva.
Inteligência Artificial já está a mudar a profissão
A inteligência artificial encerrou a agenda da convenção, num painel dedicado ao impacto da tecnologia na mediação imobiliária, que reuniu Alex Rayón, especialista internacional em IA, Bruno Coelho, diretor do Casa Yes, e Filipe Marques, CEO da X-IMO.
A conclusão foi clara: a inteligência artificial deixará rapidamente de ser um fator diferenciador para passar a constituir uma competência essencial dos profissionais do setor. Automatização de tarefas, análise de documentos, tratamento de dados, apoio à decisão e personalização do serviço foram identificados como algumas das áreas onde a tecnologia terá maior impacto.
Bruno Coelho defendeu que o verdadeiro desafio já não é adotar ferramentas de IA, mas saber utilizá-las de forma estratégica. “O maior risco, neste momento, é ignorar a inteligência artificial. O segundo maior risco é utilizá-la sem estratégia“, afirmou. O responsável alertou ainda para a importância da qualidade da informação utilizada: “Se introduzimos maus dados na inteligência artificial, obtemos maus resultados.”
Já Filipe Marques defendeu que a verdadeira vantagem competitiva não estará no acesso às ferramentas de IA, mas na capacidade das empresas para transformar os seus próprios dados em conhecimento útil para apoiar decisões e antecipar oportunidades de negócio.
Apesar da aceleração tecnológica, os participantes convergiram numa ideia: a inteligência artificial reforçará a produtividade e a capacidade analítica dos profissionais, mas continuará a ser a relação humana a distinguir os melhores mediadores.
Os profissionais no centro da discussão
A agenda reservou também espaço para ouvir quem está diariamente no terreno. Num dos painéis, quatro consultores de diferentes redes imobiliárias partilharam os percursos que os levaram ao topo da profissão, defendendo a importância da autenticidade, da formação contínua, da especialização e da construção de uma marca pessoal baseada na confiança.
Outro dos debates deu voz a diferentes modelos de mediação imobiliária, mostrando que o sucesso pode resultar de estratégias distintas: da aposta no digital à proximidade, do networking ao mercado internacional. O elemento comum é a capacidade de compreender o cliente, de criar relações de longo prazo e de ser consistente.
Um setor a preparar a próxima década
Ao longo de um dia de reflexão e debates, ficou evidente que a mediação imobiliária entra agora numa nova fase de evolução.
Mais regulamentação, maior qualificação, novas competências digitais e uma integração crescente com áreas como a intermediação de crédito e a inteligência artificial desenham uma profissão mais especializada e exigente.
O IMOCIONATE 2026 procurou precisamente antecipar esse futuro, reunindo diferentes perspetivas sobre os desafios que irão moldar o mercado imobiliário português nos próximos anos. E se é certo que o futuro da mediação será mais tecnológico, também é consensual que continuará a depender das pessoas.
Habitação
O que muda com o choque fiscal da habitação?
O diploma já está em vigor: IVA a 6%, IRS a 10% e novas regras para construir e arrendar.